segunda-feira, janeiro 24, 2011

assusta-me



assusta-me que o
ofício da luz perca os
objectos ou estas longas
paisagens. mas farto-me das
coisas que, ao mínimo
vislumbre, parecem
reais.


valter hugo mãe
foto: antónio matos

Validation

segunda-feira, janeiro 10, 2011

no desgoverno dos sonhos




no desgoverno dos sonhos,
talvez púrpura do frio, talvez
cego de sol, talvez acorde

procuro palavras que
me entendam

como imagino coisas acesas
pelos lugares e não saboto
a vontade de deus


valter hugo mãe

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Everything is OK

Paulo Robalo...



... e as suas lutas ancestrais indianas, paquistanesas, iranianas num corpo a corpo em a cera de abelha, fundida a quente com pigmentos naturais...
é belo...

Ana Hatherly... colagem

Everything is OK on the Happy Carriage

Um simples corpo


A prontidão das sombras resume
Um simples corpo e resvala sinuosa.
Sei que recordo tudo em certos momentos.

Recordo-te até como se te chamasse,
Como se corresse através do caminho
Que vais preparando junto aos precipícios.

Mas a memória revela o que não sei,
Desfaz sequências de nomes até ti.

Repito a violência e seguro uma pedra
Com as mãos – tal como as tuas – já perdidas.

Repito toda a fragilidade que o teu peso insinua
E derramo a voz ao limite – ossos e carne
Que nos atiram ao chão com o afecto da dor.


Rui Almeida
in Lábio Cortado

A definição do amor



dantes escrevia poemas de amor. para viver com o amor
nos poemas, sempre. depois disseram-me que já toda a
gente o fez, que nada mais havia a escrever sobre o amor.
que o amor já estava em demasiados poemas. eu aceitei
o conselho e passei a escrever poemas de morte. escrevi
muitos poemas sobre o meu pai, até ao dia em que percebi
que a morte é sinónimo de amor, como tudo é sinónimo
do amor. e voltei a escrever o que nada havia a
dizer. porque até o poema é sinónimo de amor.

 
Jorge Reis-Sá
in biologia do homem

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Passagem...


Passagem.
O gosto de ocultar venceu. Venceram a reserva, a prudência, a discrição natural, a instintiva tendência chinesa para apagar vestígios, para evitar encontrar-se a descoberto.

O prazer de manter escondido venceu. Assim a escrita passou a estar ao abrigo, passou a ser um segredo; segredo entre iniciados.

Segredo difícil, longo, custoso de partilhar, segredo para fazer parte de uma sociedade. Círculo que durante séculos e séculos vai permanecer no poder. Oligarquia dos subtis.


Henri Michaux
excerto de Idéogrammes en Chine, 1986 / Ideogramas na China, livros Cotovia, 1999 - Série Oriental - tradução de Ernesto Sampaio
 
foto by lia villares

Se ao menos soubesses...


Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos;

se ao menos percebesses que eram nossos
todos os bancos de todos os jardins;

se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo
que ambos empunhámos na cidade clandestina

Quando as manhãs cheiravam a óleo e a flores
e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;

se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo;

se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos.



Joaquim Pessoa

foto: António Matos

quarta-feira, janeiro 05, 2011

CORPO COMUM



surdamente desato
um som inaudível

suponho que perfume algum
possa emanar do nada
em que nenhuma imagem
subsiste

onde não há pegadura
e se saboreia apenas
a exclusiva gastronomia
de morrer-se


Miguel-Manso

terça-feira, dezembro 14, 2010

Para os meus amigos



Um dia a maioria de nós irá separar-se.
Sentiremos saudades de todas as conversas atiradas fora,
das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,
dos tantos risos e momentos que partilhámos.

Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das
vésperas dos fins-de-semana, dos finais de ano, enfim...
do companheirismo vivido.

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.

Hoje já não tenho tanta certeza disso.
Em breve cada um vai para seu lado, seja
pelo destino ou por algum
desentendimento, segue a sua vida.

Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe... nas cartas
que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices...
Aí, os dias vão passar, meses... anos... até este contacto
se tornar cada vez mais raro.

Vamo-nos perder no tempo...

Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e
perguntarão:
Quem são aquelas pessoas?
Diremos... que eram nossos amigos e... isso vai doer tanto!

- Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons
anos da minha vida!
A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...

Quando o nosso grupo estiver incompleto...
reunir-nos-emos para um último adeus a um amigo.
E, entre lágrimas, abraçar-nos-emos.
Então, faremos promessas de nos encontrarmos mais vezes
daquele dia em diante.

Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a
sua vida isolada do passado.
E perder-nos-emos no tempo...

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não
deixes que a vida
passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de
grandes tempestades...

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem
morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem
todos os meus amigos!


Fernando Pessoa

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Andava a lua nos céus




Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo

Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.


António Botto
Aves de Um Parque Real
As Canções de António Botto
1999

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Where is my man




Nunca te tenho tanto como quando te busco
sabendo de antemão que não consigo encontrar-te.

Só então consinto estar apaixonada.

Só então me perco na selva esmaltada
de carros ou carrosséis, cafés abarrotados,
luas de montras, labirintos de parques
ou de espelhos, correndo atrás de tudo
o que se parece contigo.

Estou sempre à espreita.

O alcatrão derrete na rua,
este movente estampado
de camisas e pólos, cujas cores comparo
ao azul celeste ou ao verde malaquita
que por teu peito eu abria.

Deliciosa angústia se julgo reconhecer-te
me faz desmaiar, minha pele toda a nomear-te,
alerta, pendente de meus olhos.

Minha vista indaga, como é fácil de ver,
qualquer indício que me leve a ti,
que te meta no meio onde só tua imagem
prevalece e se te ajuste e funda,
te achegue, te inaugure e estejas para sempre.


Ana Rossetti