segunda-feira, janeiro 18, 2010

O segredo da Flor de Ouro



O inconsciente, é projectado no objecto, e o objecto introjectado no sujeito, isto é, psicologizado. Animais e plantas comportam-se como seres humanos, os seres humanos também são animais; deuses e espectros animam todas as coisas. O homem civilizado considera-se naturalmente bem acima destas coisas.

No entanto, não raro, passa a vida inteira identificado com os pais, com seus afectos e preconceitos, culpando impudicamente os outros pelas coisas que não se dispõe a reconhecer em si mesmo. E guarda também um remanescente da inconsciência primitiva da não-diferenciação entre sujeito e objeto. Por isso mesmo é influenciado magicamente por inúmeros seres humanos, coisas e circusntâncias, isto é, sente -se assediado de modo irresistível por forças perturbadoras, muito apreciadas como as dos primitivos; do mesmo modo que estes últimos, necessita de encantamentos ou feitiços apotropaicos. Ele não manipula mais com amuletos, bolsas medicinais e sacrificios de animais, porém com soporíferos, neuroses, racionalismo, culto da vontade, etc.


O segredo da flor de ouro
C.G.Jung/R.Wilhelm.

O Beijo - Gustav Klimt


Toma-me


Toma-me.

A tua boca de linho sobre a minha boca Austera.

Toma-me AGORA, ANTES

Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes

Da morte, amor, da minha morte, toma-me

Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute

Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo. Da fome

Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,

Um sol de diamante alimentando o ventre,

O leite da tua carne, a minha

Fugidia.

E sobre nós este tempo futuro urdindo

Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida

A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.

Te ordenas. E eu delinqüescida: amor, amor,

Antes do muro, antes da terra, devo

Devo gritar a minha palavra, uma encantada

Ilharga

Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar

Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo

Imensa


De púrpura. De prata. De delicadeza.



Hilda Hilst

Gentileza gera gentileza...


Dedicado a Gentileza (José Datrino, 11.04.1917-29.05.1996), com o propósito de ajudar a preservar sua história e sua mensagem.


Bilhete do Kaos

terça-feira, 4 de fevereiro de 1964


S.W. (isto é, Samuel Wainer) disse pra mim: "Escreve o que você quiser". E eu disse: "Está bem". Eis aí o que escrevo.

1
JOSÉ Roberto Aguilar, pintor amigo meu, disse que era preciso comer excrementos. Até hoje, comi excrementos, suor, sangue, raiva. Deste caldeirão é que é feita a vida moderna. Mais alguns nacionalismos e tudo vai bem.

2
A ERA da tragédia é que virá, e não a era idealista de Erich Fromm, que causa o delírio da burguesia média. Norman Mailer está muito mais próximo da verdade do que o psicólogo suíço.

3
OUTRO DIA quase bateram na filha do Miguel Arraes numa festa de gente de bem. Quem a mandou doutrinar em ambiente de milionários? Mas ela só tem 16 anos! Idealismo louco de crian-ça que quer transmitir o que sente, mas não vê a realidade das situações. Pernambuco tem uma dança, que nenhuma terra tem...

4
BRIGITTE BARDOT é bárbara. Seu corpo é uma sinfonia brejeira de jazz e mar carioca. Por isto ela gostou tanto do mar. O de Saint Tropez é muito europeu, civilizado. Ela quer selvageria latina e tropical. Na imaginação dos estrangeiros oriundos de países super-desenvolvidos, terras como a nossa representam a selva, o novo, o caldo da vida. Os países super-desenvolvidos já estão gastos, podres: aqui estaria o maná. Ignoram nossa fome. Mas esta é outra conversa.

5
POIS BEM: BB quer o novo, o mar selvagem e o povo misterioso e erótico (somos nós). No fundo ela quer ser rasgada, destroçada, despedaçada, apalpada pela multidão. Mas ao mesmo tempo tem medo. Ela vive no abismo irreal da fama que o cinema lhe criou. Ela está lá em cima e, ao mesmo tempo, aqui muito embaixo. É uma criança com muito sexo que não deixou de ser criança. Suas carnes balançam e sua voz quente é a voz dos infernos. Ela vive no nada. No vácuo. Ah! Marilyn Monroe! Vítimas da engrenagem vampiro deste mundo falso. Mas no fundo de tudo, existe a luz, e BB veio procurá-la aqui no Brasil. Tomara que Bob Zagury a conduza para os caminhos do encontro com esta luz.quarta-feira,

5 de fevereiro de 1964

1
ARACY DE ALMEIDA agarra o microfone e canta. A voz dela tem milênios de sofrimento e a alma do Noel Rosa. Depois ela xinga muito. Cada palavrão rola de sua boca! Apelido: Araca. Sua dramaticidade é telúrica. Comove além da emoção: já é instinto. Onde anda ela? Bossa nova abstrata acabou com a minha Araca? Às vezes ela tem jeito de moça de fábrica com toda a melancolia do samba Três Apitos.

2
GUAXUPÉ, Minas Gerais. O milionário Mário Ribeiro Lima tem uma paixão especial: a de domar éguas selvagens a pelo. Caiu cinco vezes da égua endemoniada. Na primeira quebrou o braço, mas continuou a domar a fera. Só descansou quando a égua também se machucou ferindo a pata numa pedra pontuda e jorrando sangue a valer, que um cachorro lambia. Eu vi tudo isso e posso afirmar que era uma cena quase surrealista. Ainda por cima surgiu uma Folia de Reis com suas cantorias místicas. Isto foi na velha Minas Gerais. Mário ficou tão desesperado que tirou sua camisa e enrolou com ela a pata ferida da égua. Chorava desesperado ao ver a égua machucada. Coisas de cavaleiro, famílias mineiras, e verões doidos.

3
DEPOIS da revolução econômica virá a existencial: a revolução existencial é o "kaos".

sexta-feira, 7 de fevereiro de 1964

1
O PLAYBOY é um louco. Um fruto da agonia contemporânea. Não lhe faltam, porém, os atributos mágicos do esplendor, do fascínio. Quero dizer que ele é bacana. Em toda sua nojentice, farsa, trapaça, tem algo de grandioso. Até hoje não descobri o que é. Será o simples humano? Uma réstia de heroísmo? Juventude? Carne jovem tão jovem nos caminhos sem bem ou mal? O que é? O que o move é a ânsia pelo perigo. O desejo sado-masoquista de bater e ser torturado pela polícia. No fundo é um monstro-herói. Quer sangue e escuridão. Mas no fundo deseja amor e carinho. Uma espécie de embriagado.

2
O QUE MAIS me alucina é que eles são bebês! Vendendo sua carne ao tempo. Em suas blue-jeans azuis ao vento, cabelo despenteado, gestos eternamente sexuais, brutalidade condensada e um lirismo piegas por baixo de toda esta fogueira de ódio. Um herói dos tempos modernos. E não se iludam: o playboy não desaparecerá! Mesmo lá na URSS, novas hordas de juventude desenfreada ameaçam o austero PC. Evtuchenko é o mais lírico deles. E os "beatniks" nos USA? A Europa mergulhada nos "angry" e "blousons noirs"? É esta a revolução em marcha. A revolução da juventude pelos caminhos da tragédia. Porque, num futuro não muito longínquo, vira a era do KAOS. O tédio, o sexo, a angústia. Eis a trindade do futuro! Todos serão heróis! As novas contradições da História trarão o caos das paixões. As energias domadas pela coletividade farão ressurgir para todos o destino trágico, a agonia pública, o desvario institucionalizado, o choque total da paixões humanas no plano do absurdo. Novo existencialismo, se quiserem os que são doentes por dar nomes a tudo. Como dar nome a um rio de fogo? Só se for este novo: KAOS.

3
O IRRACIONALISMO já dá seus frutos. Após a revolução industrial, tanto nos EUA como na URSS e depois em todos ou outros países, surgirá a era da tempestade. O reinado da tragédia. O dia da tristeza não-pessimista, o dia da tristeza positiva encarnada na chuva que goteja sobre o mundo e as coisas e os seres no galope desenfreado da vida.

4
OS POETAS são uma multidão de fracos a carregar tochas para iluminar a escuridão que nos apavora.

sábado, 8 de fevereiro de 1964

1
POR AQUI sopra o vento do Senhor. Creio em Arigó e em Canudos. Na Umbanda e em todos os ritos desta terra formidável. Creio na Igreja Católica e no Universo como um grande cosmos, onde tudo se desenrola sem direção. Relatividade total. Espaço-tempo. Kaos. Por isto peço: não persigam Arigó. Ele é um messias dessa terra santa. Não o persigam.

2

UM PLAYBOY rico e triste (é sempre assim) cheirava gasolina e se deliciava com isso. Outro tomava bolinhas mesmo. E eu no meio deles (sem me querer fazer de santo) bebia água. Por que emporcalhar o mundo com meia dúzia de juízos e conceitos? A vida é muito mais que um amontoado de sínteses! É vento, lama, sangue!

3
DURANTE um século gritaram-me nos ouvidos que as mulheres querem é casar. Na prática (ou praxis, como pretendem os marxistas) verifiquei que é justamente o oposto. Elas querem é anarquia.

4
SOBRE a frieza das mulheres, aparentemente o problema não existe no Brasil. É também um pouco tabu. Mas atrai muita gente.

5
LEÃO PÉRSIO, pintor abstrato, é um sujeito sisudo. Mineiro sei que é assim. Passou oito meses comendo mel e torradas. Promessa? Angústia? Sei lá. Só sei que depois da penitência voltou o mesmo. Mistério artístico.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 1964

1
MAISA, quando a conheci, ela estava linda e me disse: "Eu sei que vou morrer no ano que vem". Argumentei: "Mas como é que você sabe uma coisa dessas?" E ela, rindo, respondeu: "É porque se não morrer, eu me mato".

2
ESQUERDAS: há uma grande confusão de esquerdas no país e, inclusive, muita gente nem sabe o que é isto. Mas a nova geração saberá, se não sabe, quer saber. Longe de me fazer cronista político, quero somente às vezes ilustrar certos fatos políticos, pois política é muito importante e essencial. Principalmente no Brasil e no mundo de hoje. Perguntaram ao Miguel Arraes porque tinha abandonado a poesia. E ele respondeu: "Porque descobri que a maior poesia é a política". Ouvi esta definição de política-poesia também da boca do vereador do PTB, o Odon. Enfim, cada artista defende sua arte. Há muitas esquerdas. E no fundo uma só. Qualquer hora eu volto ao assunto.

3
ME DERAM o cano um milhão de vezes nos mais variados negó-cios. Eu, porém, nunca desisto. Vou em frente. Outro dia sonhei com uma mulher. Ela estava num jardim escuro e falou para mim: "Mas Jorge, eu só te traí vinte vezes!"

4
NORMA BENGUEL estava no Sebastião Bar ouvindo a bossa de lá. O Sebastião Bar é um bar diferente. Invenção do monge maldito Paulo Cotrim, que fez daquilo uma mistura de Espiritualismo + Paganismo. De Roma + Grécia. E tem sensualismo, frustração, bossa. Sofisticado é o ambiente e bonitas mulheres da alta burguesia sentem-se possuídas, os demônios entram dentro delas, mil cavalos de exu, e então fazem coisas demoníacas. Um pedaço de Europa em São Paulo. De Paris, de Roma. Cotrim, o dono do bar, porém, é nacionalista.

5
O CINEMA acabou com a literatura? É o que me disseram mais de mil vezes. Chegaram para mim os cineastas de ray-ban na cara, falando: "Pára de escrever. O negócio é cinema!" E eu fico matutando. Será?

quarta-feira, 4 de março de 1964

1
SENHORES, o pau vai comer. O melhor é ir para a Suíça. Meu companheiro levou borrachada no lançamento da Frente de Mobilização Popular. Fica mais do que claro que a direita passa para a ofensiva. Ofensiva do desespero. Do ódio. Quando se enfia a faca no porco ele grita.

2
ADHEMAR compra tanques para acabar com greves e revoltas populares. Acho certíssimo dentro da obra da direita. Eles tem que acabar com a democracia.

3
BIDAULT, o extrema direita inimigo do general De Gaulle que está exilado no Brasil, é quem dirige os grupos fascistas da reação. Eles estão sendo organizados por Bidault. Assim, teremos uma direita francesa.

4
NO VIETNAME o negócio parece que vai pegar fogo. Guerra no Sul da Ásia. E quem sabe se algumas potências não se interessam por alguma guerrinha no Brasil? Seremos uma segunda Coréia.

5
PERGUNTEI a um guarda: "Você atira no povo?" Ele me olhou com olhos tristes.

6
LACERDA tem muitas metralhadoras e a nossa esperança ainda é Jango e a democracia. O golpe da direita está sendo bem preparado. Invernadas estão sendo construídas. Campos de concentração. E sei de várias listas negras. Hitler levou um dia para acabar com os esquerdistas. Tiros na nuca. É fácil.

7
"OU É O ESCUDO dourado dos germanos, ou a escuridão do bolchevismo asiático". Adolf Hitler.8 QUE A PAZ ilumine os desesperados, que Deus tenha sua suprema misericórdia, tenha piedade deste Brasil, terra do futuro e da esperança. Que os meus olhos proféticos de escritor trágico se enganem quando prevêem um mar de sangue por este continente.

segunda-feira, 9 de março de 1964

1
A ETERNA dúvida do homem é: ir ou não ir para a tempestade. Muita gente acha abrigo na casa da grande mãe. É melhor refugiar-se no seguro, do que enfrentar o abismo. Sei que vão dizer (os bitolados) que isto é idealismo negativista, ou qualquer nome idiota. Mas não me importa. Há muito que não me importo mais com os meus inimigos superficiais, que encontraram em alguma organização da teoria a paz para os seus complexos de frustração. Eu, pelo menos, não descanso, não me perdôo. A floresta é o grande perigo. É lá que estão as feras e o grande mel, a fonte rodeada de avencas e o sexo que é mais profundo e colorido quando a chuva cai serena e triste sobre a mata.

2
AS GOTAS de chuva são o choro de mil velhas morrendo de chorar, lá no céu. É a água que une a terra com o céu há milhares de anos e é a tristeza do mundo refletida. É o grande espasmo da natureza. O colossal infinito reino dos deuses.

3
É PRECISO ter a postura trágica do herói, é preciso saber renunciar um milhão de vezes e retomar a marcha um milhão de vezes. Mesmo que isto custe muitos inimigos, muitos mortos.

4
PARA onde nos conduzirá esta estrada? Vivemos dia a dia presos pelo terror. Terror de tudo, da guerra, da luta social. Agora o Partido Comunista decidiu esquecer a luta de classe por momentos. Lacerda retomou a luta de classe e é um ortodoxo. Reduziu tudo a termos de classe e usa o neo-capitalismo.

quinta-feira, 12 de março de 1964

1
COMO NÃO SOU colunista nem observador político, mas mitólogo e profeta, posso profetizar: estão tramando contra a vida de nosso presidente! A vida de João Goulart corre perigo como a de Getúlio. As mesmas forças de reação estão tentando assassinar o nosso presidente, assim como assassinaram o presidente Kennedy! O atentado está sendo preparado cuidadosamente! Peço a todos os brasileiros e democratas que rezem para que Deus proteja nosso presidente!

2
O HOMEM sempre necessita do mito. E, quando ele chega lá dentro do seu Eu profundo, nasce para um novo mito. Para uma nova conceituação do Universo em que todas as filosofias se encontram. Em que cristianismo verdadeiro (e consequentemente sempre de vanguarda) se encontra com o marxismo (não a bitolação sectária) e com a antologia de todas as meditações e formas de atingir a Iluminação. É aí que não existe nem bem nem mal. Mas só o amor que também destrói, mas destrói para construir, sempre construir destruindo, num ritmo eterno e terrível.

3
QUANDO ataco os sectários é bom que se diga o que entendo por sectário. Sectário, para mim, é o bitolado que se aferra a um dogma qualquer. Não importa qual seja. Há sectários em todos os partidos e credos religiosos. É a TODOS que combato. Quero o grande diálogo, a grande abertura, e hoje mais do que nunca este diálogo se faz necessário.

4
ATACO, portanto, os sectários de todo lugar, de Roma a Pequim, passando por São Paulo. Os que não querem o diálogo, os que têm preconceitos.

5
ESTAMOS num período lindo, enterrados o fascismo e o stalinismo, dois representantes da nova Idade Média; estamos num período de nova Renascença que se inicia timidamente, com a morte das burocracias, rumo à sociedade sem classes. Será que sou muito sonhador? Mas sou profeta e é preciso profetizar. Que bonito às vezes, em noites de lua e verão, caminhar pelas ruas cheias de árvores! Um bilhão de estrelas borbulham no céu e o calor que existe no espaço é denso. As casas iluminadas brilham, possuídas interiormente por um luz amarela e quente. Tudo é calor, vontade de tomar a divina água pura e gelada. De repente caí uma chuva e o rio corre pelas ruas.

sexta-feira, 13 de março de 1964

1
A DEMOCRACIA é a coisa mais formidável que existe. Só nela é que se goza da total disponibilidade de ir para onde se quiser. Só no sistema democrático conseguiremos fluir. A democracia com seus mitos, suas alucinações e defeitos, ainda é o melhor dos sistemas, mesmo porque em outro sistema me proibiriam de existir e escrever como escrevo. Minha obra é a disponibilidade total. Só obedeço às forças primordiais da paixão humana, dos elementos da natureza e do meu instinto.

2
E TUDO ISTO é trágico e terrível. Vocês já notaram como eu gosto de usar estas duas palavras: trágico e terrível. Terrível é bíblico, tem cheiro de milagre e coisa que surge. Trágico é pagão com todo o estoicismo inerente ao termo e à postura do homem pagão.

3
PERGUNTA freqüente: esta coluna o que é? É valida ou não? Perguntas estúpidas. Ela é o que é. É o fluir contraditório da vida.

4
FALO da democracia. E o fascínio de um ditador? Nós aqui tivemos um começo de ensaio de ditador e fascínio. E todo mundo caiu, até eu! Ele era místico, magnetizava. Quando falava era todo o povo que falava. Não preciso dizer nomes. Ainda está por aí. Gozado: em outros países o fim de um homem trágico é um fim trágico. Aqui não, é a renúncia. Em tudo se dá um jeitinho. Até a tragédia no Brasil é amenizada.E paradoxo: Getúlio, que foi positivista, avesso a todo e qualquer romantismo, suicidou-se. Foi o suicídio mais genial da História, o mais produtivo. Com seu sangue Getúlio fez a política brasileira dar a reviravolta. De perseguido passou a mártir, e com isto todo o PTB. Até hoje. Foi um dos maiores homens da história brasileira. Trágico, pairava por cima dos messianismos momentâneos. Sorria, charuto na boca, ironia em tudo. Ironia, ironia. A lei era a lei.

segunda-feira, 16 de março de 1964

1
O ROCK’N’ROLL foi uma libertação sexual. Elvis Presley um símbolo de libertação de uma sociedade puritana como a dos Estados Unidos. James Dean — o herói trágico necessário em todos os mitos — fez o papel de Dionísio. O sacrificado. Aquele que voltará, ressuscitado. "James Dean não morreu!" Observadores superficiais e gazás moralistas gritaram que isto era a decadência, ou mais uma das provas da decadência. No entanto, o mundo emergirá justamente para esta era trágica e pagã, de uma nova síntese que vai sendo lentamente plasmada.

2
O ROCK era triste, heróico, nostálgico. Jamais um povo puritano poderia suportar por muito tempo a existência desta música dionisíaca porque esta o levaria para uma introspecção sombria e para o desespero. Logo então se criou o anti-rock, o anti-dionísio, que é o twist. E na superficialidade doce e rococó do twist perdeu-se toda a tragédia, fatalidade e amargura do rock perigoso. A libertação do orgasmo sexual traria grandes perigos para uma sociedade alienada como a dos Estados Unidos.

3
FOI PARA debelar este perigo que puseram fim à música instintiva do rock. É por isto que o movimento beatnik é altamente positivo e combativo, ridicularizado pelas fontes artificiais estadunidenses. Pergunto pelo Norman Mailer e os americanos me respondem com um sorriso de mofa: "É um escritor da moda".

4
SÓ POR CAUSA do seu marxismo-sexualista (que horroriza também os sectários do lado de cá). Outro dia um comuna sectário, quando lhe falei do grande Norman Mailer, respondeu com seus olhinhos de presépio brilhando: "O que esfaqueou a esposa?". Gagá moralista, entrave dos piores à revolução.

5
ENFIM, os imbecis do mundo se dão as mãos. É por isto que a sociedade capitalista decretou guerra aos instintos. A grande libertação do kaos. E o mundo socialista só entrará definitivamente no socialismo quando empreender esta libertação dos instintos e entrar na era do kaos. Até agora está ainda longe disto. Mas tenho fé. Já se notam sinais promissores. A vanguarda gloriosa do novo empreenderá a total libertação.

terça-feira, 17 de março de 1964

1
QUE é um disco voador? Tinha um psicólogo Jungiano que dizia que o disco era uma psicose coletiva em que todos projetavam a salvação. O homem moderno, angustiado, procurava criar um novo mito, já que os velhos haviam falhado. Disco voador para mim é de outro planeta. Que lindo, parece um pedaço de sol, uma lua fria, um pedaço de saudade e mar. Tudo isto é o disco voador trazendo em seu bojo um bilhão de gotas de chuva. O disco voador é a abertura para o desconhecido. Carl Jung. É a felicidade. A última esperança. Fora a reforma agrária.

2
TUDO o que se tem dito sobre o playboy é superficial. Claro que há uma grande confusão. Eu mesmo, quando me referi a playboy, não queria dizer playboy. Referia-me à juventude transviada, no que vai uma grande diferença. Imbecis confundiram os nomes e botaram tudo numa panela só. E o beatnik? E o hipster? Aparições heróicas na selva que é este novo mundo da técnica. E a natureza do homem sofre transformações fundamentais? Duvido. Ele pode — isto sim — emergir da era dos caos para a do kaos. Transportar toda sua angústia, toda sua mágoa, sua dor, seus instintos trágicos, para uma nova fase. De maior tragédia talvez, e de muito muito maior sensibilidade.

3
O MUNDO caminha para a planificação social. Os homens do povo, o proletariado e o campesinato deixam de ser ou são para se transformar, também, em uma nova "espécie" de classe média. E os antigos oligarcas e aristocratas descem de degrau e também se transformam numa nova espécie de classe média.

4
E OS CIENTISTAS? E os artistas? Ah! estes, num futuro remoto, comandarão tudo. Serão (o que já são) os mandarins, com toda a plenitude e força que a técnica colocará em suas mãos. No fim, só os artistas mandarão. É que a Humanidade andará sedenta de fantasias, sonhos, miragens, mitos (que não são mentiras nem alucinações, mas a representação poética da vida do homem), de um novo sentido religioso. E aí os artistas serão os novos sacerdotes. Apertando os botões das grandes máquinas, o mundo inteiro viverá na grande tragédia que todos escreverão. Porque todos serão artistas.

quarta-feira, 18 de março de 1964

1
A RÚSSIA é um enorme império com pés de barro, disse um dia alguém. E agora vamos analisar, com o meu método racional-poético do Kaos, estas coisas: muita gente fica chocada quando chamo de herói o revoltado jovem que usa blue-jeans. Repito: é um herói um rebelde pronto para o grande salto: da rebeldia para a revolução.

2
POR QUE muitos gênios da Humanidade são conservadores? Quem sabe até fascistas? É porque eles recolhem todo um legado de ensinamentos antigos, e como árvore grande o gênio vive no mistério. O gênio sabe que o mistério, a poesia, o acaso, persistem apesar de toda e qualquer lógica. E como durante algum tempo os sectários dominaram os movimentos progressistas, o mistério era reacionário. O misticismo da contra-revolução. Não sabem os imbecis que Julião das ligas camponesas adora ouvir Wagner e é místico? Que Einstein acreditava em Deus? Que o Kaos é o novo mistério, a nova religião atéia do homem materialista? Ó sectários de todos os credos e partidos: uni-vos em vossa infinita ignorância de frustrados e mesquinhos!

3
NO DIA em que o dogma morrer nascerá um novo mundo. Os símbolos modificam-se, transformam-se historicamente. Todos os símbolos. Durante algum tempo uma certa força humana era chamada de espírito. Esta força que o corpo humano irradia, através de várias manifestações: poesia, imanência, simpatia e antipatia, ódio, amor, intuição, premonição, contato, etc. Todas estas coisas que deixam de ser matéria e é sobre estas forças que recai a análise do Kaos.

4
O DESAJUSTADO é um herói porque se rebela contra um status quo. O drama todo, porém, é que ele não tem forças para dominar o status quo que o oprime. Então é uma revolta dolorosa, uma luta sem meta nem objetivo. Daí ele pode nascer para a revolução, que é a luta com consciência. E mais tarde, se não se transformar em sectariozinho, pode alcançar a terceira grandiosa etapa de ser marxista do Kaos. Isto é: revolucionário com uma supra-consciência poética e sensitiva da vida e da revolução.

5
REALMENTE genial Trótski em sua revolução permanente e em suas teorias sobre arte e estética. Viva, porém, o caminho pacífico! Viva, que há condições para uma esquerda com flores no Brasil.

sexta-feira, 20 de março de 1964

1
A FACULDADE de Direito estava de luto. Faixas negras na tarde cinza de São Paulo. Um jovem faz uma leitura. Fala nos desmandos da polícia. Correm boatos da morte de um repórter da "Manchete". E a gente fica imaginando o colega morto. Uma cólera nasce na gente. Um ódio. A tarde é cinza e o estudante fala com muita emoção, exagero e impulso.

2
O AUDITÓRIO que o ouve lá na frente da Faculdade é estranho. Investigadores, curiosos, lúmpen que não trabalham de tarde, comerciantes, espectadores, pequena-burguesia. Alguns trabalhadores. Ouço uma frase: "Eles querem é incendiar São Paulo".

3
UM LOUCO? Demente? O primarismo da propaganda de direita obceca. Entro na Faculdade e vejo um furo de bala de metralhadora num vidro esquecido. Esquecido porque depois da rajadas a polícia, para não deixar as marcas das balas, espatifou os vidros furados. Esqueceu de espatifar um pedaço de vidro. Lá, ficou a marca da bala. Uma rajada foi alta. Foi para não acertar ninguém. A outra foi baixa: na altura da cintura. Foi para matar.
4
À NOITE chegou o ministro da Justiça. O brucutu com suas luzes vermelhas, na voz do delegado do DOPS, mandou esvaziar o Largo. Depois a polícia baixou a borracha. Eu estava lá e corri para dentro da Faculdade. Estava fantasiado de repórter, com uma máquina sem filme da mão. Parecia um turista na verdade. Estava falando com o Marco Aurélio que, de barba e tudo, falava de poesia. Depois falei com vários estudantes. E estudante é tão otimista. Tão estudante.

5
O MINISTRO entrou fazendo o V da vitória de Churchill. Quando o nome João Goulart foi pronunciado, era como se fosse pronunciado o nome de Dionísio nos mistérios de Eleusis. Eu e todo mundo começamos a gritar: Jango, Jango, Jango. O líder que depois de sexta-feira, 13, alcançou dimensão histórica. Existem dois líderes: Jango e Lacerda. Sendo Brizola o monstro sagrado do povo brasileiro.

6
CONFRATERNIZEI com os estudantes. Meu pessimismo com o otimismo sadio deles. Depois foi aquela apoteose. Troquei algumas palavras com o deputado Cid Franco e seu filho Valter. Cid Franco com sua face de idealista profundo e sincero. A estudante Joana, com a linda estrela de Israel no peito, e a desconfiança para comigo. Alguns amigos. A voz de Abelardo Jurema. Aquele lugar e momento histórico. Porque tudo agora é mais histórico do que nunca! São imagens que ficarão para sempre, como antevisões da Coisa Nova, dentro de mim, poeta místico e pecador.

sábado, 21 de março de 1964

1
TUDO é novo no Brasil. Tudo. Até as esquerdas. Quero dizer: em expressão de massa. Exceções individuais sempre existiram. É como em tudo o mais: estamos atrasados muito tempo. Será às vezes ridículo de minha parte sonhar com um movimento de esquerda para o Brasil como o da Itália ou o da França? Acho que o Brasil tem condições para tanto. Um país cujo processo histórico se verifique pacificamente. Haverá lugar já para um alto nível cultural e existencial na revolução brasileira? Meus esforços de encontrar uma ideologia própria dentro do marxismo (na parte da condição humana e da arte) tem sido atacada pelo maior coro de histéricos sectários visto até hoje.

2
É COMO se eu fosse ovelha negra. Quisling e criminoso. Como são ignorantes estes Catões da província! Não sabem que prejudicam mais a revolução do que a auxiliam? Eu quero impedir que uma nova Idade Média stalinista ou fascista caia sobre o mundo. Sobre o Brasil. Lutarei dentro da esquerda pelos seus altos objetivos.
3
ÀS CARTAS de apoio que recebi, meu sincero e total agradecimento. Cartas de operários, estudantes e gente simplesmente. Cartas cheias de calor humano. Muito obrigado, pois elas me dão forças para lutar. Depois de ouvir os histéricos, é bom ouvir uma voz humana, que fale com o coração e não com a bílis ou com a frustração. E para você, leitora que está tão triste porque já não é mais passarinho, eis o que digo: a vida está em você. As fontes, os rios, o céu, os infernos e os opostos, estão todinhos em você. É só chegar ali no fundo sem medo. Sem medo de ninguém e de nenhuma voz a não ser a tua. E o céu e as asas do passarinho que você foi voltarão a você, porque elas jamais te abandonaram, foram esquecidas por você durante algum tempo. Mas o que é teu, será sempre teu. Isto ninguém te arrancará. E você é poeta, e os poetas têm crises necessárias de melancolia. Você bebe a vida da própria vida. Tomando um simples copo de água. Olhando um trem. Ao lutar pela coletividade apesar dos fanáticos que dizem que também lutam por ela mas o que querem na realidade é o sangue, a vingança, a projeção dos seus complexos. Você tem a vida. Você é a vida! E muito obrigado pelo apoio.

quarta-feira, 25 de março de 1964

1
ELE É FORTE, alto, lindo. Tem a pele bronzeada pelo sol do Guarujá. Músculos nascidos dos halteres, da natação, do pólo aquático. Tem um sobrenome pomposo do qual muito se orgulha. Sorri e acha a vida uma maravilha. Seu único pavor: os comunistas. Os comunistas são o único espectro da sua vida. E comunistas são as reformas para ele. Seu olhar puro, verde, ingênuo, se torna negro, violento, cheio de cólera, quando pensa nos "comunas". Jura que os "comunas" não hão de deflorar sua irmã, nem despedaçar os móveis de sua linda casa do Morumbi, e mostrou-me uma pistola alemã Luger que guarda no porta-luvas do seu carro-esporte Karmann-Ghia. Disse ainda que mais de vinte "comunas" morrerão na frente de sua linda mansão, abatidos por sua metralhadora especialmente adquirida para matar "comunas".

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COMO é impressionante o número de empregadas domésticas que foram obrigadas por suas patroas a participar do desfile! Foram defender os privilégios das patroas.

3
O ESTUDANTE de direito virou-se para a mal-amada e falou: — "Pois é, nós defendemos o povo, as reformas, a senhora é rica, defende os privilé-gios". E a senhora gritou: —"Está enganado! Eu não sou rica não!" De fato, ela não era rica, era burra.

4
PARABÉNS à gloriosa classe dos estudantes, que sempre marcharão com a História e o povo! O Largo de São Francisco é o heróico Largo de São Francisco.

5
A IDADE Média pode cair sobre o mundo. Depende de nós. Está nas mãos do homem fazer as coisas. Senhor guarda-civil, meu amigo, irmão, homem do povo, você vai atirar no povo? Vamos mais uma vez lançar o apelo da luta pacífica, da marcha legal dentro da Constituição pela efetuação de um vasto e definitivo plebiscito popular. Pelo voto dos analfabetos. Pelas reformas realmente de base. Por todo o programa democrático!

6
SÃO PAULO tem um status quo social diferente das outras regiões do País. Uma frente nacional-burguesa aqui não funciona. Porque aqui a luta de classes é mais nítida. Sempre em nome da união total das forças progressistas e nacionais, democráticas e do centro, contra os golpes que a direita desesperada trama a todo vapor, de qualquer maneira. Saravá!

quinta-feira, 26 de março de 1964

1
QUANDO se descobre a contradição e se passa a aplicá-la, começamos a viver numa nova dimensão. Nosso ser dá um salto qualitativo tremendo e tornamo-nos amorais. Acima do bem e do mal nos leva a dialética. Tudo é negativo e positivo: estamos na contradição fundamental do homem: sua luta contra a natureza para efetuar a caminhada do progresso. Isto é agônico, dolorido. Mas as paixões continuam fluindo com a mesma intensidade. Como enfiar um sentido nisto tudo? Um motivo? Um porquê? Uma moral? Uma meta?

2
A CRISE do homem contemporâneo é a crise da vontade de poder. Para mim o homem será sempre romântico, no sentido denso do termo, sentido germânico.

3
ESTOU com André Breton em sua posição para com o marxismo. Revolução para que o homem se liberte em sua totalidade. Os fins jamais justificam os meios. Ievtushenko e qualquer poeta dirão isto. Poeta no duro. A não ser que antes de poeta ele seja um político trágico. Criticam-me alguns enjoados dizendo que repito coisas e que barateio minha mensagem escrita nos meus livros. Os enjoados estão errados. É preciso atingir todo mundo. É preciso que todo mundo saiba que a revolução, para ser verdadeiramente revolução, necessita da maior liberdade artística e existencial. Que o Kaos, ao lado de ser uma visão particular do mundo, é também a bandeira da liberdade artística dentro da esquerda. Irredutível serei nesta posição. Arte e ciência se equivalem. Nociva qualquer intervenção alheia, de dirigismo ou conceituação. É certo que estas coisas são sabidas mas é preciso repeti-las sempre e sempre, com dizia Sartre.

4
JÁ BASTA o fato de esta geração ainda ser vítima dos efeitos he-diondos do stalinismo. Ou a revolução é feita em estado de total pureza ou ela descambará para a sua mais terrível contradição. A revolução traz em si (como tudo) o seu contrário. E as questões são tão complexas que é difícil o julgamento. Eu nego o julgamento, em questões de arte, para a condição humana. Podemos julgar forças econômicas. Jamais o homem, porque todo trabalho é autêntico. Mesmo o traidor, o vigarista, o falso. Sei que não vão me entender e dizer que eu sou traidor, vigarista e falso.

sábado, 28 de março de 1964

1
BOSSA NOVA: durante muito tempo fui contra. Fui contra, simplesmente, porque era muito bonita, muito bonita demais para mim que não vivo em Ipanema, não tenho carro e sou um mitólogo trágico. Dentro de minha terminologia nietzcheana, bossa nova é muito apolínea, muito doce, muito rococó, muito boazinha, muito açúcar, muito keep-smiling, muito música de estudante sem vivência, muito letra de menino comportado, muito cristianismo, muito boa vontade. Enfim, bossa nova é o anti-eu e o que faço.

2
ACRESCENTE-SE o idealismo sectário político das letras participantes, reveladoras de um cristianismo otimista de um futuro florido. É o anti-eu, o anti-Dionísio. Tem mais: bossa nova é clássica, e eu procuro o afastamento. Ela é doce, mas de um romantismo que não machuca.

3
VOCÊS já viram a cara dos compositores e cantores bossa nova? Caras marcadas pelo sofrimento, rugas, expressão de máscara de tragédia grega. Aracy de Almeida, Noel Rosa, Ismael Silva. Por isto que as minhas músicas são todas dentro de uma linha de afastamento, deixam o ouvinte num vácuo e ele então tem que tomar posição, atitude. Inclusive todos os bossa nova são bondosíssimos. De uma ternura sem igual. Por outro lado são de um avanço tremendo. Eis o outro lado da contradição. Mas sempre carregarão dentro de si a marca de Ipanema, seu mar doce, sua vida amena e a ironia fácil do carioca.

4
A BOSSA NOVA, a meu ver, acabou. Transformou-se, melhor dizendo. Evoluiu para o afro e para o nordestino. Bebem agora em fontes folclóricas, uma verdadeira injeção vitalizante.

5
ANTES era a dissonância pela dissonância. Era o abstrato, o fácil sorrir ante o mar lindo de Ipanema. Era o conselho idiota: chega de saudade, conselho nascido de uma mentalidade de escoteiro ou reformista moral. Uma porcaria as letras sociais também, todas elvadas de uma falsidade hipócrita pequeno-burguesa. Um lirismo evangélico de fraternidade humana. O afro, a pesquisa folclórica, veio dar força telúrica, trágica, injeção de amargura e experiência de vida para esta superficialidade cor de rosa tão linda, tão apolínea que eu fico horas e horas ouvindo e achando o máximo, genial, bárbaro!

segunda-feira, 30 de março de 1964

1
GAROAVA. Chegou dentro do bar sofisticado e pagão um grupo de gente cheia de ginga. Era noite. Garoava e fazia frio. Entrou no bar frio uma turma quente. E quando olhei bem para quem entrava eu vi. E mal acreditei no que vi: entravam no bar gênios. Gênios da música brasileira. E foi de joelhos, em sinal de respeito, de adoração fanática, que eu ouvi com lágrimas nos olhos a voz de três criaturas tão puras, tão geniais que tudo o que de música existira antes deles ficou milênios para trás.

2
NELSON Cavaquinho, Zé Ketti, Cartola. Três nomes que eu pronuncio com vontade de chorar, de morrer, de alegria profunda por ter nascido numa terra chamada Brasil, que fez nascer estes três poetas maiores que Homero em sua simplicidade. Eles merecem uma eternidade de colunas, merecem tanta coisa que eu jamais poderei dar. Merecem tudo. Merecem as melhores gravadoras porque são a voz do povo em toda a sua malícia pura e beleza bachiana de melodia religiosa. Lembra tanto o canto-chão das cerimônias de Xangô!

3
SÃO os poetas mais puros e honestos que já conheci. Aquela voz rouca que carrega um tempo tão grande de emoção, sofrimento e alegria! "Diz que fui por aí levando um violão debaixo do braço". Meus senhores: estes três merecem estátua em praça pública. Merecem o que ninguém merece nessa terra. E a bossa nova nada fez de tão grande como agora, reconhecendo e trazendo à luz do dia estas jóias, estas maravilhas que nasceram nas noites do Rio de Janeiro, noites cheias de dor e alegria, de calor que o sol deixou de dia. Gente do morro. Eu rasgaria toda a minha obra por um samba daqueles! É difícil falar sobre a música, porque a música fala mais do que as palavras. É tanto o meu entusiasmo que, pela primeira vez, esta coluna tem continuação para eu poder falar amanhã sobre essa gente que é a gente do meu povo, que são os artistas do Brasil! Os mitólogos, os cantores, os poetas do povo, com sua ginga, sua malícia, sua pureza (com melodia bachiana aprendida sei lá onde!), seu calor que queima tudo na mensagem de amor mais formidável e revolucionária que já vi!

terça-feira, 31 de março de 1964

1
QUANDO os sambistas entraram no bar, os podres, os alienados, fizeram cara de enjôo. Eu ajoelhado, sabia o valor do presente que me era dado: ouvi a música, pela boca dos compositores! Os ratos, os coitados, os que fazem barulho porque nada mais sabem fazer, continuaram a falar enquanto Zé Ketti, Cartola e Nelson Cavaquinho cantavam. Mas a voz a força dos três era maior que a alienação, a falta de educação, cultura, brasilidade, dos cafajestes. A voz dos três lembrava o coro trágico de Dionísio. Era Brasil no verdadeiro samba social. Era a poesia emanando em toda a sua leveza e profundidade. Era o que de mais puro a massa produziu. Era a própria História gingando sob forma de samba!

2
VINÍCIUS de Morais disse: Socialismo, sim! Mas com samba! E eu acrescento: com samba de Zé Ketti, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Cartola e Noel!

3
FIZERAM barulho os alienados. E naquele bar eu vi o que era Brasil, poesia e História e o que alienação e nojentice. Os que falavam bobagens intelectualizadas aos grunhidos e os que cantavam poesia de morro e do povo.

4
PEDI desculpas aos três e fiz ver que São Paulo não tinha culpa. São Paulo, o túmulo do samba. Aí os três e o Franco Paulino e eu saímos para a rua e garoava. Então Nelson Cavaquinho falou para mim: — "Será que se pode cantar em rua de São Paulo?" E caía o véu de garoa prateada. Eu disse: — "Pode, a rua é de todo mundo". E então na rua, naquela noite fria, enquanto garoava, mais um samba ecoou. Mais uma vez, a noite que era fria ficou quente. O amor em forma de samba do mais puro rolou das bocas dos três gênios e a garoa que era prateada e fria ficou (eu vi) dourada e quente.

5
OS TRÊS foram embora. De repente. Num carro para o Rio de Janeiro. São Paulo foi visitada por três anjos, três demônios inesquecíveis que fazem a maior música popular, a poesia mais sincera, singela e brasileira que eu já ouvi.
De joelhos.


Jorge Mautner 24/10/2002

quinta-feira, setembro 04, 2008

Desapegar-se é uma tarefa difícil

Ao aceitar a vulnerabilidade da vida tornamo-nos menos rígidos e mais fluidos.

“A vulnerabilidade é a capacidade de não buscar o controle, permitindo que a vida passe por nós, sem querer retê-la ou possui-la.
Toda a vez que a vida é represada, o que se acumula é experimentado pelo desespero.
Quem controla, desespera: não tem o que esperar porque todas as surpresas, magias e mistérios empalidecem.
As possibilidades e os erros purificam a vida, oxigenando-a para que não se sufoque e não se inviabilize”
Nilton Bonder

“O apego é a razão pela qual temos dificuldade em lidar positivamente com as mudanças. Só o facto de pensar em desapegar de algo, deixa-nos inquietos.
Quando temos muito apego ficamos sempre agitados. Não conseguimos relaxar: sentimos medo e dúvidas.
A questão não é definir o que devemos deixar de fazer, mas sim como lidar com a nossa mente apegada.”
Lama Gangchen

Amamos melhor uma pessoa quando não temos apego por ela, isto é, quando não projectamos nela exageradamente toda a nossa felicidade.
O apego nesse sentido, é uma atitude mental que surge ao atribuirmos valores irreais a uma pessoa, coisa ou situação.
O apego surge na nossa mente quando não nos queremos responsabilizar pelos nossos estados mentais, afectivos e emocionais.
Portanto ter apego é uma forma infantil de amar. Amar com apego, faz-nos sentir dependentes dos outros e das situações: não sabemos mais sustentarmo-nos sozinhos, pois perdemos o prazer de conhecer o nosso próprio potencial de auto cura, e isso enfraquece-nos.

Na maior parte do tempo, não nos damos conta do quanto estamos apegados a algo ou alguém. Precisamos criar uma certa distância do objecto para podermos observar a natureza exagerada do nosso apego. No entanto, como esse afastamento é doloroso, preferimos não fazê-lo. Uma vez que o apego está associado a uma experiência prazerosa, facilmente nos convencemos de que ela é um afecto positivo e raramente somos capazes de avaliar o quanto ele prejudica a nós mesmos e aos nossos relacionamentos.
Ao contrário do que acontece com o que nos provoca raiva ou irritação, ninguém quer se “livrar” daquilo a que se sente apegado. Infelizmente na maior parte das vezes, só lidamos com o desapego quando ele é inevitável e imposto pelas circunstâncias, como a morte ou o abandono.

O melhor é aprendermos a despertar o amor próprio e a amar com desapego.

By Bel César in Livro das Emoções
Editora Gaia

segunda-feira, setembro 01, 2008

Sobre a felicidade


Meditar, visualizar imagens que curam, recitar mantras, rezar ou ficar em silêncio são métodos eficazes para purificar nossa mente de seus hábitos negativos. Porém se os praticarmos com a intenção de anestesiar o sofrimento, para não precisarmos estar em contacto com ele, estaremos agindo como um carro atolado na lama: quanto mais se tenta mover as suas rodas, mais preso ele fica. Isto é quanto mais negarmos a verdadeira causa dos nossos sofrimentos, mais estaremos presos neles.

Estamos apegados ao sofrimento e precisamos aprender a ir além dele. Estamos tão sobrecarregados de ideias preconcebidas, expectativas e exigências que não conseguimos mais nos mover dentro de nós mesmos! Sentimos a rigidez de nosso mundo interno e tudo à nossa volta passa a ser insatisfatório. Estamos de facto, atolados em nós mesmos. Não somos felizes quando perdemos o nosso espaço interno.

Felicidade não é algo ligado ao ter, mas ao fazer. Ela não é um humor ou um estado de ânimo, por mais exaltados e duradouros que sejam, mas o resultado de uma vida bem conduzida, ou seja, das escolhas e valores que definem o nosso percurso. A felicidade, em suma, jamais será um estado final que se possa adquirir e dele tomar posse de uma vez por todas. Ela é uma actividade, algo que se cultiva e constrói, algo que por alguns momentos, se conquista e se desfruta, que é fonte de contentamento, mas que está sempre a exigir de nós empenho e amor, sempre recomeçando outra vez.

Podemos atingir a felicidade profunda, perfeita e permanente quando nos libertamos da ignorância, isto é, do hábito arraigado de buscar a felicidade nas condições externas e de estarmos condicionados por nossos próprios estados emocionais ou prazeres físicos.

Portanto o segredo para sermos felizes é ampliar o nosso espaço interno, isto é, manter a mente aberta, disposta a apreciar a vida e a cultivar um senso contínuo de leveza e bem estar.

By Bel César in “O Livro das emoções” Editora Gaia

sábado, agosto 30, 2008

Considerações de Yvan Anmar sobre “estar vivo” (ser responsável)



A liberdade implica responsabilidade. Yvan não se cansava de o repetir, não colocava a sua dignidade numa reivindicação pessoal de auto controlo ou de auto domínio, mas na capacidade de assumir a sua responsabilidade em relação ao outro.

Ser responsável
O corolário da “relação consciente” é o sentido da responsabilidade para com o outro.
“Hoje, a espiritualidade é social e politica. Rezar é fazer o que se deve.” Yvan não podia ter definido melhor o espaço do “crescer” espiritual. Não é a meditar nas margens do Ganges que um ocidental contribui para a sua própria transformação e para a dos outros, mas estando no seu terreno de todos os dias, a família, o trabalho, a participação na vida da cidade e na vida associativa.
Não há evolução espiritual sem “consciência solidária”, e esta é necessariamente política diz Yvan. Não podemos viver isolados, não podemos transformar-nos sozinhos no nosso canto. Quando se tem consciência profunda da dívida para com a vida, não podemos mais ser dominados pelas “reivindicações dos nossos pequenos direitos”: o direito à felicidade é ultrapassado; quando a alcançamos, já não é o direito à felicidade que está em primeiro lugar, mas o dever de estar vivo, e, quando se está verdadeiramente vivo, ninguém se preocupa com a felicidade pessoal. Não estou aqui para ser feliz nem para dar a felicidade a alguém, mas para assumir a responsabilidade de uma visão e de a partilhar. Ser responsável é ser servidor da vida, é ser portador de uma intenção que leva a tomar consciência de quanto somos responsáveis por aquilo que é o conteúdo da vida, mesmo não sendo seus proprietários.

By Marie de Hennezel in “Morrer de Olhos abertos” Editora Casa das Letras

Considerações de Yvan Anmar sobre “estar vivo”


O verdadeiro problema não é o de saber se viveremos depois da morte, mas o de sabermos se estamos vivos antes de morrer.

Ousar o encontro
Para que serve sentar-se confortavelmente, a meditar de olhos fechados, se o vosso filho está no quarto ao lado entregue às suas brincadeiras, sozinho, se o vosso marido ou a vossa mulher não conseguem descobrir o caminho para o vosso coração e partilhar as suas preocupações, se os vossos colegas de trabalho vos sentem ausentes e indisponíveis, se os vossos velhos pais vivem com o sentimento de estarem abandonados?
Hoje um grandíssimo número de pessoas procura fugir à dura realidade da vida através de uma “procura espiritual”.
Yvan sabia-o, ele próprio o testemunha. É por isso que os seus ensinamentos se centram nessa ideia mestra: “É a relação que nos faz crescer”.
É portanto, necessário correr o “risco do outro”, tem de se ir ao seu encontro, porque é a relação com o outro que revela o real. O nosso cônjuge, os nossos pais, os nossos filhos, os nossos vizinhos, os nossos amigos, os nossos colaboradores, os nossos colegas, todos eles constituem aquilo a que Yvan Anmar chamava de o “nosso consciente exterior”. São eles que nos dizem o que nós não podemos dizer a nós próprios, que nos confrontam permanentemente. Em geral, evita-se o relacionamento para obstar os conflitos e o que nos pode fazer sofrer, ou, então, consideramo-nos vitimas dos outros. Mas a verdade é que podemos tornar-nos seus discípulos.
Yvan lamenta, com tristeza, as relações que constantemente evitam as fricções. As pessoas procuram proteger-se, mas adoptando essa prática, não se encontram verdadeiramente. “Como se, em matéria de relações, pudesse haver a capacidade de crescer só com a meditação, ou com a yoga, ou com o zen, ou com qualquer outra coisa. É no interior da relação consciente que se cria este reconhecimento que nos faz crescer.”
Correr o risco do outro, ousar o encontro, supõe deixar cair as nossas barreiras defensivas, supõe despirmo-nos das nossas roupagens e assumirmos a nossa vulnerabilidade ou a nossa impotência. É então que se revela a fecundidade do encontro: uma comunhão íntima que abre caminho a uma profunda dimensão da vida.
Quando desaparecem as barreiras que colocamos entre nós para nos protegermos, quando arriscamos o encontro alma a alma, a consciência do que passa a ligar-nos traz-nos uma alegria que é indubitavelmente uma alegria espiritual.
A compaixão torna estes encontros fecundos!

By Marie de Hennezel in “Morrer de Olhos abertos” Editora Casa das Letras

sexta-feira, agosto 29, 2008

Considerações de Yvan Anmar sobre a sabedoria da vida


“Aprendi uma única coisa: como amar o meu próximo… quando há amor a morte não existe”
As nossas responsabilidades, em especial a de não nos deixarmos transformar em vítimas, mas em discípulos dos acontecimentos, aprendendo e crescendo através deles.
Yvan veio dizer-nos quanto a reivindicação dos nossos direitos nos separa da vida. “Será que despertei para o dever que implica estar vivo, será que estou consciente da minha responsabilidade em relação ao que me foi confiado: a vida? O nosso dever?”, adverte ele, “é fazer frutificar o que nos foi confiado.”

“No caso da nossa vida, somos julgados sobre a forma como amámos e apenas por isso. Se o nosso trabalho nos permitiu ir entrando cada vez mais na intimidade das leis secretas deste amor, qualquer coisa começará a operar em nós, qualquer coisa que tem a ver com a conversão, qualquer coisa que fará que nos sintamos obrigados a este amor. Não poderemos, então, proceder de outra maneira que não seja estar às ordens desta lei… Sabemos acolher o outro, sabemos nós acolher o estranho, o desconhecido? Somos capazes de assumir o risco do outro? Somos capazes da relação?... O amor é uma grande aventura no decurso da qual se manifesta a interdependência de tudo o que existe. Não podemos percorrer esse caminho de amor sozinhos.
Descobrir que nada existe separadamente, que tudo está ligado e que nada pode vir de fora é uma questão que a todos diz respeito. Não podemos crescer senão em conjunto. As leis que se escondem e estão à espera no interior da vida, as leis do amor que fazem bater o coração da vida e lhe imprimem os seus ritmos secretos, são estas as leis que nos importa redescobrir na nossa alma, no nosso coração e no nosso corpo. É necessário que a nossa pessoa inteira seja um coração a bater em uníssono com este coração da vida. Todos quantos reconhecerem a prioridade a dar as estas leis, afirmam unanimemente: sim, esta vida ama-nos, esta vida está à espera de que façamos crescer esse amor.
Todos concordam na resposta à pergunta de Einstein: Ao fim e ao cabo, há apenas uma questão verdadeiramente importante à qual gostaria de saber responder: O universo que nos rodeia é-nos favorável ou não? Todas as pessoas que se abriram à vida podem responder “sim”…
Compete a cad um reconhecer a imensa responsabilidade e a importância da sua existência, tomar-se a sério a si próprio e dizer que é por bem…
Não é uma questão de urgência, mas de prioridade. O que é prioritário para si? Quer fazer da sua vida uma obra de arte, quer dar beleza à sua vida, quer acrescentar qualquer coisa ao mundo?... Cuide, então, de descobrir quais são as leis secretas que fazem bater o coração do que é vivo e adopte essas leis como regra da sua vida. Transforme-as em oportunidade de se submeter ao divino e de se tornar servidor do amor. Se assim acontecer a sua vida será uma poesia, um acto criador, porventura anónimo e não necessariamente espectacular, significando que abandonou a seita dos egoístas e entrou no universal movimento do amor.”
No limiar da morte, Yvan falava apenas de uma coisa: o amor!

By Marie de Hennezel in “Morrer de Olhos abertos” Editora Casa das Letras

Três conselhos espontâneos de Lama Michel


Há poucas semanas, estava conversando com meu filho Lama Michel sobre a disponibilidade interna que precisamos ter ao encarar projectos que nos comprometem a longo prazo, quando espontaneamente ele me disse: “Mãe, eu aprendi três coisas: não tenha medo de ser quem você é, saiba até aonde você quer ir e ofereça ao invés de pedir”.

Assim que pude, anotei nossa conversa.

Conforme compartilho com amigos e pacientes estes três pontos, vejo o quanto eles são um conselho real e profundo.

Lama Michel ressaltou: “É melhor que a gente seja transparente, pois mais pra frente vai vir à tona quem somos realmente. Então, uma vez que vamos ter que lidar de qualquer maneira com nossas dificuldades, é melhor procurar desde o início encontrar soluções do que criar desentendimento e decepção mais tarde”.

Muitas vezes, temos receio até mesmo de expressar nossas qualidades e dons, pois não estamos familiarizados com a simples experiência de nos expormos, isto é, de nos expressarmos de modo singular.

Quando criança, aprendemos, sem nos darmos conta, muito sobre como devemos nos comportar para sermos mais aceites, conquistar atenção e recursos para nossas necessidades básicas. Ao crescer, muitas destas associações ganham um novo peso conforme aprendemos a nos relacionar com as pessoas e com situações muito diferentes da nossa original. Aprendemos a fazer ajustes e a sermos mais flexíveis ao reconhecer que também podemos ter um modo próprio de expressar nosso potencial criativo.

No entanto, quando não formos estimulados a nos expressar, iremos criar preconceitos a respeito de nosso modo natural de ser: precisamos lutar para ser quem de fato somos.

Se em nosso ambiente de infância tivermos tido pais (ou as pessoas mais próximas de nosso convívio) que souberam expressar o seu próprio potencial criativo, mais tarde esta lição será mais fácil de ser praticada por nós mesmos. Mas se eles não foram pessoas interessadas em aprender e explorar o mundo à nossa volta, com muitos dogmas e preconceitos, teremos que descobrir por nós mesmos como mobilizar em nosso interior disponibilidade e inspiração para fazer novas descobertas. Quanto mais sincero tiver sido o modo de se expressar de nossos pais, menos estereotipado será o nosso comportamento quando adultos. Cada um sabe o quanto teve que treinar para ter a satisfação de ser quem se é...

O segundo ponto a que Lama Michel se referiu "saber até onde queremos ir", sem dúvida só pode ser conquistado com a maturidade.

Saber trazer o sonhos para a realidade, a inspiração para a realização e ajustar nossas expectativas com uma visão de futuro é um desafio e tanto! Requer autoridade interna e muita sinceridade, seja em relação ao a nosso próprio potencial, seja para com o ambiente em que nos inserimos...

Por fim, o terceiro ponto "oferecer ao invés de pedir", merece uma reflexão maior.

Podemos, por ora, apenas nos questionar: quando estamos de fato oferecendo algo?

Quantas vezes quando damos algo a alguém não temos a intenção de ganhar algo com isso ou até mesmo de seduzir a pessoa?


By Bel Cesar

quinta-feira, agosto 28, 2008

mais uma do tio Osho


"O verdadeiro Tantra não é uma técnica, mas o amor;

não é uma técnica, mas um estado de prece;

não é orientado pela cabeça, mas um relaxamento no coração.

Por favor, lembre-se disso.

Muitos livros foram escritos sobre o Tantra, e todos eles falam de técnicas, mas o verdadeiro Tantra nada tem a ver com técnicas.

O verdadeiro Tantra não pode ser escrito;

ele precisa ser percebido, sentido, sorvido."


Osho

Todos somos buscadores

Quantas vezes você se sente perdido?
Sua mente confusa em devaneios, o corpo anestesiado para não sentir.
Você quer uma resposta, quer um salvador.
A resposta está em si mesmo.
Enquanto você continuar a olhara para a confusão, tudo o que verá é confusão.
Mude o seu foco.
Enquanto achar que precisa de um salvador, que a resposta vem do outro, continuará a ser vítima de si mesmo.
Você está disposto a assumir a responsabilidade e a fazer diferente?
Seja o criador de sua própria realidade. Olhe para dentro e verá aquilo que busca, o que realmente quer. Já está aí, basta ir para dentro e se abrir.
O universo é um campo de potencialidades e você tem todas em si mesmo.
Todos somos buscadores.
A busca é por algo que nem sabemos ao certo o que é, mas que esperamos nos completar, nos tornar felizes.
O que não sabemos é que dentro de nós já está tudo o que precisamos.
O que é necessário então?
Voltar-se para dentro novamente. A jornada é interna. O caminho natural é o que leva a si mesmo, ao reencontro, à alegria intrínseca de apenas existir.
Passamos toda a nossa vida acumulando defesas, máscaras, personalidades, um mundo artificial - são os artifícios de que necessitamos para viver em sociedade, mas nada disso é você e nada disso é realmente necessário. Você se distanciou do que realmente é, e é preciso remover tudo isso, todo esse lixo, todos os artifícios para poder novamente apenas ser, o caminho de volta à naturalidade, à sua verdadeira essência.
Quando reencontramos essa essência, entramos em estado de êxtase.
É a mais pura alegria, um vazio preenchido pelo todo, a união mística com o universo, a sensação de plenitude.
Por isso o êxtase é o caminho natural.
É o caminho de volta a si mesmo.

quarta-feira, agosto 27, 2008

projecto mãe terra

Voltando a escrever, a manifestar o pensamento... quase um ano depois, depois de mais uma mudança de ciclo... com novos projectos para o projecto mãe terra!

Sorrisos

“Somente a compaixão é terapêutica, porque tudo o que é doença no homem é causado pela falta de amor.
Tudo o que está errado com o homem, está de alguma forma associado ao amor.
Ele não tem sido capaz de amar ou ele não tem sido capaz de receber amor.
Ele não tem sido capaz de compartilhar o seu ser.
Essa é a miséria.”

Osho

sexta-feira, julho 27, 2007

O desafio da mudança



Pessoas que não mudam, são prisioneiras de padrões.
Gostam só de um tipo de música, só de um tipo de pessoa, só de um tipo de trabalho, só de um lugar;
Preferem sempre as mesmas paisagens... As mesmas rotinas… O mesmo modo de fazer...

Pessoas que não mudam, defendem seus padrões.
Seus "eus" são seus padrões.
Alguns deles vêm nos gens...
Mas a maioria são padrões de nossos pais, dos nossos avós, da nossa cultura, da corrente do pensamento humano, que se perpetuam...

Confundimos nossos padrões com o nosso ser.
Qualquer voz diferente é um "ab-surdo"
Qualquer acção diferente é um "in-cômodo"

Sentimos sempre do mesmo modo:
Gostamos sempre das mesmas coisas.
Temos sempre as mesmas aversões.

Vivemos na defesa dos nossos "sagrados padrões".
São eles os nossos deuses?
São eles os nossos patrões?

A pessoa apegada a um modo de ser, a um padrão de comportamento e sentir, tem uma vida alienada, estagnada.
É como uma poça de água estagnada, ao largo do grande rio da vida.
Que é em si mesmo o rio da mudança.

“Mude” de Edson Marques

segunda-feira, julho 16, 2007

Incendeie a rede


...
"Os seres iluminados utilizam o termo “fire the grid” (acendam a rede) quando eles querem falar do energização da humanidade com o poder Divino, em 17 de Julho de 2007. Eles dizem que “acender a rede” completam duas coisas. Primeiramente, ela pulsará energia curativa na direção do centro da terra, regenerando seu núcleo, ou o coração do planeta. Assim que nós esparramamos energia na direção do meu filho moribundo, nós estaremos, individualmente, doando o dom de nossas intenções verdadeiras, o dom de nossa individualidade e o dom de nossa energia curativa. Como eles explicaram, o campo de energia de meu filho moribundo estava tremendamente deteriorado, como Terra. Nós devemos esparramar um pouco de nossa energia vital na direção da Terra e a combinação de nossas energias irá regenerar a Terra. Eles me disseram que os seres humanos são como pequenas varinhas iluminadas, canalizando a energia de Deus para o planeta. Em virtude de nos termos separados de uma completa conexão com A Fonte, por não termos uma rede humana funcionando totalmente, a energia de Deus não está sendo capaz de facilitar o fluxo na direção da Terra. Se nós optarmos por nos reunirmos para reconstruir a nossa rede, então, o fluxo natural de energia entre nós e Deus, Deus e a Terra, e de pessoa para pessoa, será restabelecido. Você já percebeu que tremendo presente você dará? Esta energia viverá eternamente com a terra e seus habitantes; o esplendor da intenção de nosso Criador em nossa direção irá se concretizar na criação deste novo campo de energia para nosso planeta.
E você me perguntará: como faremos isso? O tempo foi definido para 17 de Julho de 2007, às 11h11 (horário oficial de Greenwich), em Portugal às 12h11 (horário de verão). Eu não tenho dado nenhuma indicação do por quê desta data e horários tenham sido escolhidos, mas tal data tem sido mostrada pra mim sem parar. Tenho sido convidada em reunir a maior quantidade de seres humanos possível, ao redor de todo o planeta, em cada canto do globo, para simplesmente sentar e orar ou meditar por cerca de uma hora durante tal tempo. Esperançosamente, com sua ajuda, nós iremos juntar uma reunião de seres humanos de um modo jamais visto pela humanidade. Seres humanos amoráveis com uma intenção – de curar nosso planeta e despertar nossos espíritos para nosso verdadeiro propósito... de sermos uma unidade com nossa Fonte de Luz."
...


para maior sintonia, visitem o site http://www.firethegrid.com/por/home-fr-por.htm

sexta-feira, julho 13, 2007

Porque precisamos desenvolver o mundo interno tanto quanto o mundo externo


A sociedade moderna investiu a maior parte de sua energia no cuidado com o mundo externo e, como consequência, testemunhamos nos últimos trezentos anos uma explosão de desenvolvimento externo material. Esse desenvolvimento trouxe resultados benéficos, como a eletricidade, as viagens aéreas, a eletrônica, intervenções cirúrgicas capazes de salvar vidas, etc. Entretanto, não podemos negar que trouxe também muitos resultados negativos e altamente perigosos, como as armas nucleares e químicas e a energia nuclear.
Talvez eu esteja enganado, mas, em minha opinião, as últimas gerações superenfatizaram o desenvolvimento externo material e o conseqüente conforto e riqueza físicos, e negligenciaram o cuidado com o mundo interno a ponto de quase esquecerem-se de sua existência.
Não estou sugerindo que devemos parar o desenvolvimento material ou as pesquisas científicas e tecnológicas. Sem a tecnologia, para muitas pessoas seria impossível viver em nosso planeta hoje. Entretanto, talvez devêssemos dar maior ênfase ao desenvolvimento de tecnologias apropriadas e positivas. Um bom exemplo disso são as tecnologias de redução da poluição ambiental, como os conversores catalíticos, os métodos de reciclagem, etc. Se usarmos a tecnologia de uma forma positiva, teremos resultados maravilhosos, e não os resultados negativos que atualmente todos nós conhecemos. Também precisamos nos preocupar em começar a fazer um investimento semelhante em nossos recursos para desenvolver o mundo interior.
No Tibete, antes da invasão comunista em 1959, não dávamos muita importância ao cuidado com o mundo externo, pois estávamos sempre muito ocupados cuidando do mundo interior. Dançávamos com a impermanência de forma criativa e usávamos essa dança para relaxar (Ngelso) no espaço absoluto e unir nosso dia-a-dia ao mandala de cristal puro. Como consequência, desfrutávamos muito mais a regeneração e o relaxamento interior profundo Ngelso e a satisfação duradoura, a felicidade e a liberdade interior do que se pode conseguir seguindo e tomando refúgio apenas nos fenómenos relativos. Se pudéssemos todos aprender a tomar refúgio em ambos os níveis da realidade, o absoluto e o relativo, e a cuidar dos mundos externo e interno, nossa sociedade se tornaria mais pacífica, mais feliz, satisfeita e grandiosa que qualquer civilização antiga.
Nos últimos tempos, a sociedade contemporânea tem se esquecido totalmente do mundo interno, que está agora sofrendo profundamente, sempre chorando e com ciúmes do mundo externo. Com ciúmes e raiva, ele está reagindo violentamente e, já que seus gritos têm passado despercebidos, como um grupo terrorista, o mundo interno vem secretamente desenvolvendo e guardando bombas atómicas internas de emoções negativas. Essas bombas atómicas internas guardadas em nosso coração, canal central e chakras, podem explodir a qualquer momento, ameaçando destruir nosso mundo interno, os outros seres, nossa sociedade e o planeta.
As bombas internas de emoções negativas não são apenas uma ameaça à nossa saúde mental e física e à nossa paz interior; elas podem também destruir os frutos positivos do desenvolvimento científico e tecnológico. Por exemplo, devido à ganância coletiva, à cobiça pelo poder, egoísmo, etc., usamos a tecnologia de forma errada, criando armas de destruição em massa, como as armas atômicas, químicas e a laser; causamos uma imensa poluição interna e externa, o esgotamento dos recursos naturais, a destruição do meio ambiente e a extinção de muitas espécies.
Também nos níveis social e político, podemos ver nossa energia negativa explodindo e dando curso à devastação, resultando em mais e mais guerras, fome, pragas, desastres naturais, desigualdade e corrupção política e social, genocídio, uso de tortura, abuso dos direitos humanos, terrorismo, sindicatos internacionais do crime, abuso de drogas, alienação social, desintegração da família tradicional e das estruturas religiosas, políticas e educacionais, doenças físicas e sofrimentos mentais em constante crescimento.
As armas nucleares que hoje proliferam pelo mundo e que tanto nos aterrorizam são apenas um fraco reflexo externo dos instrumentos internos de destruição que trazemos no coração. Se fôssemos sábios, deveríamos nos aterrorizar com as bombas nucleares internas de ilusões estocadas em nós mesmos. Precisamos nos perguntar honestamente: o que motivou a sociedade moderna a criar armas nucleares capazes de destruir todos os seres vivos do planeta? Quem ou o que realmente tememos? Quem é nosso verdadeiro inimigo?
Temos que descobrir como desarmar os instrumentos mortais suicidas da raiva, inveja, orgulho, ganância, instabilidade mental, desejo e ignorância em nosso coração. Primeiro, precisamos reconhecer que possuímos um precioso corpo humano, um veículo que nos permite fazer o que quisermos nesta vida. Possuir um corpo humano como o nosso é, nos níveis externo, interno e secreto, uma oportunidade fantástica, que não deve ser desperdiçada. Se soubermos usá-la de uma forma positiva, poderemos praticar a Autocura Ngelso momento após momento, e chegar à autocura completa – o estado de Buda – no curto período de uma vida.
Por outro lado, se usarmos este corpo de uma forma negativa, trilhando o caminho da escuridão interna, cada momento poderá contribuir para nosso suicídio pessoal e planetário. Podemos escolher ngel – ir da escuridão para a escuridão e da luz para a escuridão – ou so, da escuridão para a luz e ou da luz para a luz. A decisão é nossa.Ao compreendermos a preciosidade de nosso veículo físico, deixamos espontaneamente de tratá-lo como uma máquina e desenvolvemos um genuíno interesse por cuidar dele e começar a aprender a usá-lo de uma forma positiva.

Com a finalidade de enriquecer nossas reflexões sobre a relação entre o mundo interno e o mundo externo, selecionei mais um texto do livro Autocura Tântrica III (Ed.Gaia) de Lama Gangchen Rinpoche. Bel Cesar.

quinta-feira, julho 12, 2007

Sobre o amor...


Sempre que você amar, ame de todo coração, e nunca tenha medo de mostrar o seu amor.

Deixe que seu amor seja como um livro aberto que pode ser lido por todas as almas. É a coisa mais maravilhosa do mundo, por isso deixe esse amor divino interior fluir livremente.

O amor não é cego: ele vê o que há de melhor na pessoa amada e assim faz emergir o que há de melhor. Não fique escolhendo a dedo aqueles a quem você vai amar. Apenas deixe seu coração aberto e mantenha o amor fluindo igualmente para todas as almas.

Assim você estará amando com o Meu amor divino.

Ele é como o sol e brilha igualmente para todos. O fluxo do amor nunca deve ser aberto e fechado como uma torneira.O amor não deve ser exclusivo, nem possessivo.

Quanto mais você estiver desejoso de compartilhá-lo, maior ele se tornará.

Agarre-se a ele e você o perderá.

Deixe-o livre e ele retornará a você multiplicado e se tornará uma alegria e uma bênção para todos que dele compartilharem.

in Abrindo Portas Interiores – Eileen Caddy – Ed. TRIOM

segunda-feira, julho 09, 2007

O poder dos mantras


Estamos cansados de sentir o peso de nossas preocupações, dúvidas e angústias. Queremos sentir a leveza de uma mente saudável! Para tanto, precisamos nos deixar tocar pela força da energia positiva subtil, pois ela age como um bálsamo curativo sobre nossa mente cansada.

Podemos nos nutrir de energia espiritual por meio dos mantras: na qualidade energética dos sons sagrados. Na meditação budista, trabalhamos mais com sons e imagens do que com o conceito das palavras. É que as palavras estimulam a mente conceptual e os sons e as imagens “tocam” a mente. Assim como Lama Gangchen costuma nos dizer: “Nossa mente é muito dura. Por isso ela precisa ser massajada com os mantras, para dissolver a sua rigidez e os seus bloqueios”.

A palavra sânscrita mantra é formada de duas sílabas: MAN que significa mente, e TRA, proteger. O seu significado é, portanto, “proteger a mente”.

O poder sutil das palavras recitadas num mantra é uma qualidade abstrata que só pode ser observada por meio de seus efeitos. Neste sentido, o mantra age como que num plano secreto, pois seu poder está além das imagens e das palavras.

A força secreta do mantra depende de algumas condições. Como por exemplo, se o praticante recebeu ou não a transmissão oral deste mantra por um mestre que tenha realizado o poder subtil do mesmo.

Na tradição budista tibetana, a transmissão oral é muito importante. Pois é por meio dela que o praticante irá receber a transferência de poder para praticar o mantra. Isto é, o mestre irá activar a força secreta do mantra para o discípulo poder praticá-lo.

Assim como explica Lama Gangchen Rinpoche em seu livro “Autocura Tântrica III” (Ed. Gaia): “Quando usamos o termo 'secreto' não queremos dizer que as palavras, melodias ou explicações sejam secretas. Todos os tibetanos podem ir a uma livraria e comprar livros sobre todos os assuntos mais incríveis e secretos do Tantra tibetano. 'Secreto' significa que é necessária uma transmissão de coração para coração para que as instruções funcionem. A experiência interna que cada um tem é secreta, pois é uma experiência meditativa, e quando nos dirigimos às pessoas que não a tiveram, podemos apenas sugeri-la por meio de palavras. ’Secreto‘ significa que a mente não tem forma e que, portanto, é muito difícil expor uma experiência mental. Tradicionalmente, todos os meditadores tântricos mantinham secretos os resultados de suas práticas, contando-os apenas aos seus melhores amigos, para assim guardar sua energia interna.
Como resultado, tudo que eles desejavam fazer com a mente (desenvolver a compaixão, a experiência da vacuidade ou a Iluminação) sempre dava certo. Esse é o motivo por que aconteciam tantos milagres e experiências especiais no início das linhagens tântricas: os meditadores sabiam muito bem como cuidar de sua preciosa energia mental interna”.

A força do poder de cura de um mantra depende também da clareza de intenções daquele que o recita. A qualidade da motivação de quem recita um mantra revela seu desenvolvimento espiritual. Uma pessoa pode recitar mantras para adquirir bens materiais e poder pessoal.

No entanto, sua força será muito maior quando ela o recitar para desenvolver compaixão e amor, porque esta é a força original do mantra.

Desta forma, ele estará em sintonia com a força secreta do mantra.Durante séculos, os mantras têm sido usados na prática espiritual para focar e transformar a energia subtil.

As energias curativas despertadas pelo som do mantra são inerentes à psique. Na tradição budista, estas forças positivas são caracterizadas como divindades: manifestações de uma força transformadora que se encontra em nossa mente.

by Bel Cesar

quinta-feira, julho 05, 2007

Actividades Julho 2007


Curso de Reiki – 1ºnível, dia 07 de Julho de 2007

(10h às 13h)


Curso de Introdução à Meditação – dia 07 de Julho de 2007

(15h às 18h)


Curso de Reiki para crianças– dia 08 de Julho de 2007

(10h às 18h)


Curso de Pêndulos e Florais – 1ºnível, dia 14 de Julho de 2007

(10h às 13h)


Curso de Reiki– 1ºnível, dia 14 de Julho de 2007

(15h às 18h)


Curso de Introdução à Meditação - dia 21 de Julho 07

(10h às 13h)

Curso de Reiki – 2ºnível, dia 28 de Julho 07

(10h às 13h)

Retiro de Reiki– dia 29 de Julho 07 (10h às 16h)

Outras actividades semanais:

(horário pós laboral)


Todas as Terças feira no Sardoal – grupo de meditação e partilha de Reiki
(20,30h às 24,00h)

Todas as Quintas feira em Abrantes - curso de Reiki -1º nível
(20h às 23h)

domingo, julho 01, 2007

Chi Kung (2)


Qigong e taijiquan (taichichuan, tai chi chuan)


O taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) inclui em sua progressão didática a aquisição da habilidade de dirigir o qi. Por isto pode-se dizer que o taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) inclui o qigong (chi kung). Até a 18ª geração da família Chen o qigong (chi kung) do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) era aprendido quase que unicamente dentro da forma, pela repetição exaustiva desta durante anos até que os princípios de circulação do qi tornassem-se claros naturalmente. Os Grão-Mestres da geração atual (a 19ª) da família Chen, levando em conta as dificuldades em implementar uma prática tão intensiva da maioria dos seus alunos, modernizaram a didática antes espartana e elaboraram os exercícios básicos de desenrolar da seda (chansijin) e de postura da estaca (zhanzhuang (zhan zhuang)). Assim podemos dizer que estes são os exercícios de qigong (chi kung) do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan), embora é claro os princípios aprendidos com estes exercícios devam estar presentes durante toda a prática.No entanto o taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) difere de grande parte dos exercícios de qigong (chi kung) em que não devem ser empregadas técnicas de visualização, de controle da respiração ou de direção da atenção mental com o objetivo de dirigir o qi. O princípio fundamental do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) é a naturalidade: o caminho para atingir a habilidade de circular o qi é fazer com o que o corpo forneça as condições para que isto aconteça. O corpo deve ser treinado com os exercícios de zhanzhuang (zhan zhuang), de chansijin e com a laojia com a intensidade e durante tempo suficientes para que a postura e o movimento corretos do corpo permitam que a respiração ajuste-se por si só, e que o qi circule espontaneamente com o movimento.O Grão-Mestre Chen Xiaowang costuma dizer durante seus seminários: “Se você tem a postura e a respiração errados, você tem somente um erro; se você tem a postura errada e a respiração correta você tem dois erros”. Com isto o que está sendo explicado é que é um erro forçar a respiração de acordo com quaisquer normas, pois a respiração deve ser natural. Conforme o corpo for sendo modificado a respiração mudará espontaneamente sem que seja necessária interferência da vontade do aluno. Se você tentar fazer a sua respiração se aprofundar forçosamente com a sua mente a única coisa que conseguirá será mais rigidez. Primeiro é necessário corrigir o seu corpo, então você pode relaxar, e então a respiração automatica e naturalmente se aprofunda, mas isto não é controlado pela sua mente. A arte marcial do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) não é “arte marcial do controle da mente”: mais tarde é necessário chegar a um estado de não-mente, de mente vazia, o que quer dizer que não resta mente alguma que controle o que quer que seja, não há “eu quero” ou “eu desejo”, ou “eu tenho que”.O mesmo aplica-se à circulação do qi : é inútil imaginar a circulação do qi durante o treinamento. O que tem que ser feito é ajustar a posição e o movimento do corpo com precisão suficiente para que o movimento do corpo cause a circulação do qi. Assim como não é possível derrubar um adversário mais forte apenas por desejar, ou por concentrar-se bastante e imaginar, também não é possível forçar a circulação do qi através da concentração ou de visualizações.


Estes dois textos são da autoria do Eduardo in taijiquan.pro

Chi Kung (1)


Qigong (chi kung)


Gong significa trabalho, e qi tem várias traduções possíveis, sendo uma das mais precisas “sopro vital”. A tradução mais popular é sem dúvida “energia”, que não chega a ser uma má tradução desde que não se faça confusão com o conceito físico de energia. Assim, qigong (chi kung) significa literalmente “trabalho sobre o sopro vital”. O termo qigong (chi kung) pode ser aplicado então a qualquer exercício que vise influenciar a circulação do sopro vital no corpo humano.Nos tempos antigos o qigong (chi kung) recebeu vários nomes diferentes, como xingqi (promover e circular o qi), fuqi (tomar qi), tuna (expirar e inspirar), daoyin (induzir e conduzir o qi), shushu (contar a respiração), zuochan (meditação sentada), shiqi (viver do qi), jingzuo (sentar quieto), e wogong (exercício deitado), entre outros.


História

Desde a época da etnia Yao já se sabia que a dança podia ser útil para fortalecer a saúde: no capítulo intitulado “Sobre a Música Antiga” dos Anais de Outono e Inverno de Lu, pode-se ler
o yin tende a estagnar (…) e acumular-se nas profundezas do corpo, (…) os músculos e ossos enrijecem e encurtam e não podem mais estender-se apropriadamente, então a dança é criada de acordo para remover a estagnação e a obstrução.
Com o tempo algumas danças evoluíram para exercícios físicos e terapias envolvendo a respiração.Na dinastia Zhou (sec. XI a.C. a 771 a.C.) havia inscrições a respeito de qigong (chi kung) em objetos de cobre, e nos escritos atribuídos a Laozi (sec. VI a.C.) há menção a métodos respiratórios. Na tumba nº 3 de Mawangdui, em Changsha, na província de Hunan - China, foi encontrado um livro de seda com o título “Sobre Abandonar a Comida e Alimentar-se de Qi” e uma pintura em seda com ilustrações sobre daoyin, ambos da dinastia Han do oeste (sec. 3 a.C.).Clássicos da Medicina Tradicional Chinesa como o Neijing Suwen e o Tratado sobre Doenças Febris de Zhang Zhongjing, ambos da dinastia Han, expõem e sugerem métodos de qigong (chi kung) para promover a saúde. Desde então renomados médicos como Sun Si-miao, Wang Tao, Li Shizen e Wang An, entre outros, mencionaram, descreveram e até criaram métodos de qigong (chi kung).


Variações

Existem várias dezenas de exercícios de qigong (chi kung) diferentes, pertencendo à tradições diversas e com objetivos distintos. Muitos destes exercícios são benéficos à saúde e sua prática não oferece risco mesmo para pessoas com a saúde debilitada, outros exigem um preparo prévio grande e podem até ser causar danos ao praticante se não forem cultivados apropriadamente e seguindo à risca instruções detalhadas que chegam a envolver o estilo de vida do aprendiz.Desta forma, ao decidir-se pela prática do qigong (chi kung) o primeiro passo é definir qual o objetivo almejado. Pode-se dividir, a título didático, os exercícios de qigong (chi kung) em três grupos de acordo com o objetivo: o qigong (chi kung) terapêutico, o qigong (chi kung) marcial, e o qigong (chi kung) religioso. No entanto é preciso ter em mente que esta divisão é artificial e algumas vezes arbitrária, pois muitos exercícios podem ser usados para mais de um objetivo.O qigong (chi kung) terapêutico visa melhorar a saúde do praticante, seja tratando uma desarmonia já presente ou fortalecendo a saúde para tornar mais difícil que algum desarmonia se instale. Alguns exemplos de exercícios terapêuticos chineses são o qigong (chi kung) dos Oito Brocados e o qigong (chi kung) dos Seis Sons. O qigong (chi kung) marcial tem como meta fortalecer o físico do praticante de modo a permitir que este receba impactos com o mínimo possível de dano e desfira golpes com o máximo de potência e efeito. Dois exemplos famosos são o exercício da Camisa de Ferro e o da Palma de Ferro. O qigong (chi kung) religioso tem o objetivo de treinar a mente do praticante a atingir determinados estados de concentração necessários ao progresso na meditação, e de fornecer as condições físicas e energéticas para que estes estados possam ser atingidos.A maioria dos exercícios de qigong (chi kung) emprega visualizações, direção da atenção mental, e controle respiratório. Estas técnicas são utilizadas em várias combinações em graus diversos de intensidade, e podem ou não ser combinadas com movimentos físicos.