sábado, abril 09, 2011

Laisser faire, laisser passer



1.
o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha

2.
o neoliberal
neolibera
o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?

3.
no céu neon
do neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super
(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas
(flutuantes)
do câmbio:
enquanto o não
- neoliberado
come pão
com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidrobanheira cor
de âmbar
de sua neo-
mansão em miami

4.
o centro e a direita
(des)conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís-
tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números

5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
dede que circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.

6.
(a
contramundo o mundo-não -mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus
mamonas)

7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes
coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do
perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre - festa
estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)

Haroldo de Campos

Fragmentos





1
Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
               despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
                                       no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
                                                      penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso



2
Passa da uma 
                     você deve estar na cama
Você talvez
                 sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
                          Para que acordar-te
com o
         relâmpago
                        de mais um telegrama



3
O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano



4
Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo



5
Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carca
ça.



Vladimir Maiakóvski
tradução de  Augusto Campos

Reportagem



Aborrecido, passeio
Pelas ruas da cidade.
Deixei agora o Rossio
E atravesso o Borratém.
Deu meia-noite pausada
No Carmo. Um amigo meu
Passa e tira-me o chapéu.
Paro a uma esquina. Esmoreço
Numa saudade que surge
Dentro de mim não sei como:
Uma saudade infinita,
Misto de choro e revolta.
Alguém me chama no escuro:
Volto a cabeça. A uma porta
Um vulto mexe. - Sou eu!,
Não fuja, sou eu... - Mas quem?
Retrocedo, não conheço
A mulher que me chamou.
Na verdade ninguém ouve,
Ninguém distingue o apelo
Do amor que anda perdido
No mistério de mentir:
Deixo-a ficar onde estava;
Dou-lhe um cigarro e um sorriso
Dizendo que vou dormir.
Atira-me boa-noite
Num frio olhar de ofendida.
Meto à rua do Amparo
A perguntar se esta vida
Não terá finalidade
Menos sórdida e banal?
Atafonas. Uma Igreja.
Mais acima o Hospital.
Um marinheiro propõe
A esta que atravessou
A rua do Benformoso
Irem tomar qualquer coisa
Na Leitaria da Guia.
Ela pára. É uma catraia
Que talvez não tenha ainda
Dezasseis anos. Bonita.
Devagar vou-me chegando
Xaile, uma blusa, uma saia...
E oiço a fala dos dois.
Ele parece uma onda,
Impetuoso, alagante.
Ela é um breve bandó
Num corpito provocante.
E seguem... Ele, encostado,
Muito encostado e aquecido
Lá vai como se encontrasse
Um objecto perdido
Que foi milagre encontrá-lo...
Cortaram além!... E param?
Oiço o rebate de um estalo
E um grito subtil de prece
Amedrontada na fuga...
Desço ao Marquês do Alegrete.
Um candeeiro sinistro
Numa casa que se aluga...
Vejo um polícia. Arrefece.
Um grupo de três sujeitos
Discute o vinho de Torres.
Varrem as ruas. Um gato
Bebe água numa sarjeta;
Uma carroça parou
Carregada de hortaliça
Junto à Praça da Figueira.
Corto a rua dos Fanqueiros
Já um pouco estropiado...
Acendo um cigarro. A noite
Lembra um fantasma assustado...
Chego ao Terreiro do Paço.
O arco da rua Augusta
Parece mais imponente
Na minha desolação...
Vou até ao cais. Em baixo
O rio bate sem reacção...
A maré vasa. No céu,
Vão-se apagando as estrelas.
Um guarda-fiscal dormita
Na guarita, mas de pé.
Um velhote com um cesto
E uma lata vem dizer-me
Se eu quero beber café.
Num banco de pedra. Cismo.
E ali me fico a cismar
Em coisa nenhuma... O dia
Principia a querer ser
Mais um passo na incerteza
Das nossas aspirações...
As águas do rio a escutar
Parecem adormecidas...
E o dia nasce! Vem triste,
Nublado, fosco, cinzento,
Enquanto pela cidade
A vida acorda e desata
O matinal movimento...



António Botto
Photo by Gatumudo

John Cage - Prelude for Meditation

sexta-feira, abril 08, 2011

The Lovers



One is upstairs typing,
the other downstairs

reading, two lovers

separated by a single floor.
A simple sentence.

The closest they will get

is in that moment
when one stops the way

the other also stops,

exchanging places
with each other

without ever getting up—

Timothy Liu is the author of eight books of poems, most recently Polytheogamy and Bending the Mind Around the Dream’s Blown Fuse.

in Zócalo Public Square
photo by aless&ro

segunda-feira, março 28, 2011

Happiness


Happiness cannot be traveled to, owned, earned, worn or consumed.
Happiness is the experience of living every minute with love, grace
and gratitude.

segunda-feira, março 14, 2011

Astro-Gymnastics



Go on a starlit night,

stand on your head,
leave your feet dangling
outwards into space,
and let the starry
firmament you tread
be, for the moment,
your elected base.

Feel Earth’s colossal weight
of ice and granite,
of molten magma,
water, iron, and lead;
and briefly hold
this strangely solid planet
balanced upon
your strangely solid head.

by Piet Hein
Foto de Anton Bielousov "stars_astrogymnastics"-613x391
in Zócalo, Connecting People to Ideas and to Each Other

sexta-feira, março 11, 2011

Independência



Recuso-me a aceitar o que me derem.
Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.

Recuso-me às espadas que não ferem
e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.

Recuso-me a estar lúcido ou comprado
e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.

Recuso-me à inocência e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!

Jorge de Sena, in 'Coroa da Terra'

segunda-feira, março 07, 2011

Is Old Age Over?

By 2030, over 70 million Americans will be beyond traditional retirement age and facing the problems that come with growing old: weakened physical and mental capability, uncertain financial standing, personal loss and loneliness, and a sense of exclusion from America’s age-old affair with youth.
But even as the baby boomer generation moves inexorably toward the 65-year-old divide, scientists, health gurus, and businessmen promise that old age can be “cured”, or at least put on pause.
Is there hope for a new old age, or are we still chasing the fountain of youth?
Best-selling writer and social commentator Susan Jacoby, author of Never Say Die: The Myth and Marketing of the New Old Age, visits Zócalo to ask what old age means, and whether living longer is possible — or even desirable — without living better.

quinta-feira, março 03, 2011

BEING A GRAIN OF SAND



The real experience, beyond the dream world, is the beauty and color and excitement of the real experience of now in everyday life. When we face things as they are, we give up the hope of something better. Depression and ignorance, the emotions, whatever we experience, are all real and contain tremendous truth. If we really want to experience the truth, we have to be where we are. It is just a matter of being a grain of sand.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Els Castellers

Els Castellers by Fernando Barão

A castell is a human tower built traditionally in festivals at many locations within Catalonia, in Spain.

 
Camera: Nikon D70

Camera specifications
Focal length: 200 mm
Shutter speed: 1/180 sec
Aperture: F6.3

By big master Fernando Barão
1st place at dpreview

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Hypocrite Reader–Mon Semblable!


In his book Why Everyone (Else) is a Hypocrite, psychology professor Robert Kurzban argues that hypocrisy is hard-wired into the human brain. Kurzban’s evolutionary psychological view of the mind calls into question our customary notions of consciousness and self, as this excerpt from his book entertainingly demonstrates:



There really is something strangely compelling about the notion of someone in charge in the brain, someone watching the action, someone in control. Indeed, the philosopher Jerry Fodor is insistent on this point: “If . . . there is a community of computers living in my head, there had also better be somebody who is in charge; and, by God, it had better be me.” I don’t really know what Fodor means by “somebody,” “in charge,” or “me” in that sentence, so I’ll just pass discreetly on.

The modular view means that we ought to be really careful about how we think about consciousness. Because we don’t really know the function of the modules that happen to be conscious, we should be very wary of the notion that conscious modules are necessarily going to turn out to have really big roles to play in what the brain, as a whole, is up to. It might seem as though they should, but it could be that we only feel this way because consciousness is the only thing the brain does that feels like something. My guess–and I think the evidence in psychology is with me on this–is that whatever the conscious modules actually do constitutes relatively little of what the mind, in total, does. So, there are many, many things going on in your brain, and “you” have consciousness–experience–of only some of them. Your visual system is doing all kinds of complex computations–it takes an insanely complicated set of operations to turn the light on your retina into something other bits of the brain can use, and you don’t experience any of those. You just experience the visual world.

Further, there’s no particular reason that we ought to expect that consciousness is or must be associated with any particular process. We know more today than we used to about consciousness, but I think I’m on firm ground when I say that there’s still a lot we don’t know. In particular, I don’t think we know what the function of consciousness is, or even if it’s reasonable to talk about consciousness having a function. I won’t get into the philosophy of this, but it’s worth keeping in mind that if we don’t really understand it, we probably shouldn’t make any sweeping claims about it.

There’s a strong intuition that the conscious modules are “us,” and that “we” need to know, basically, everything. But while Bobby does just fine asking Annie out at the end of cranium command, the modules that implement this excellent idea probably don’t have information about how that decision was made. Many, many modules are busily doing their jobs, giving conscious modules the information necessary to do theirs, but quite possibly not much beyond that.

It’s easy to forget this. It’s easy to think that the conscious I is “in charge,” originates decisions, and, basically, is every single module. But it’s not. I think Dennett got it right when he said that while there is some sense in which we all reject dualism, nonetheless, as he put is, “the persuasive imagery of the Cartesian theater keeps coming back to haunt us–laypeople and scientists alike–even after its ghostly dualism has been denounced and exorcized.”

Excerpted from Why Everyone Else Is A Hypocrite: Evolution and the Modular Mind, by Robert Kurzban. Copyright © 2011 by Robert Kurzban. Excerpted with permission by Princeton University Press.

Buy the book: Skylight Books, Powell’s, Amazon
*Photo of Rodin’s “The Thinker” courtesy of edmenendez.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Presunção de sofrer




Penso que deve existir para cada um
uma só palavra que a inspiração dos povos deixasse
virgem de sentido e que,
vinda de um ponto fogoso da treva, batesse
como um raio
nos telhados de uma vida, e o céu
com águas e astros
caísse sobre esse rosto dormente, essa fechada
exaltação.

Que palavra seria, ignoro. O nome talvez
de um instrumento antigo, um nome ligado
à morte — veneno, punhal, rio
bárbaro onde
os afogados aparecem cegamente abraçados a enormes
luas impassíveis.
Um abstracto nome de mulher ou pássaro.
Quem sabe? — Espelo, Cotovia, ou a desconhecida
palavra Amor.

Sei que a minha vida estremeceria, que
os braços sonâmbulos
iriam para o alto e queimariam a ligeira
noite de junho, ou que o meu
coração ficaria profundamente louco. E nessa
loucura
cada coisa tomaria seu próprio nome e espírito,
e cada nome seria iluminado
por todos os outros nomes da terra, e tudo
arderia num só fogo, entre o espaço violento
do mês de primavera e a terra
baixa e magnífica.


Herberto Helder

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

A canção do delirante Aengus




Eu fui para uma floresta de nogueiras,
Porque minha mente estava inquieta,
Eu colhi e limpei algumas nozes,
E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo;
E, quando as claras mariposas estavam voando,
Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas,
Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho
E capturei uma pequena truta prateada.
Quando eu a coloquei no chão
E fui soprar para reativar as chamas,
Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.
Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.


W.B. Yeats (1899)
foto de Jules Berlin.

Poemas... e são dois!



falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida
***

pus-me a escrever um poema que
fosse tal e qual uma pedra e
acertasse sempre no que
eu bem quisesse
se parti alguma coisa, pois
não faço ideia
o que garanto é que
não fui multada
até recebi direitos de autor
ainda que injustamente
a pedra era obviamente um plágio
quanto ao poema, quem sabe


Bénédicte Houart
in Aluimentos, Cotovia, 2009

Hipérbole del amoroso


Hipérbole del amoroso

Te amo tanto que duermo con los ojos abiertos.
Te amo tanto que hablo con los árboles.
Te amo tanto que como ruiseñores.
Te amo tanto que lloro joyas de oro.
Te amo tanto que mi alma tiene trenzas.
Te amo tanto que me olvido del mar.
Te amo tanto que las arañas me sonríen.
Te amo tanto que soy una jirafa.
Te amo tanto que a Dios telefoneo.
Te amo tanto que acabo de nacer.

Carlos Edmundo de Ory

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Disconnect to connect

Se dermos um pouco mais de atenção ao mundo que está à nossa volta, conseguiremos dar muitro mais atenção a nós próprios...
;o)

terça-feira, janeiro 25, 2011

Women Are Heroes

Agora, já não preciso



Agora, já não preciso que gostem de mim.
Agora, tenho mil peças de um puzzle, tenho
uma caixa cheia de molas soltas, duas mãos,
tenho a planta de uma casa, tenho ramos
guardados para o inverno, e tanto silêncio,
tenho tanto silêncio, bolsos vazios e cheios,
pão, fé, céu, chão, mar, sal, sol, cá e lá,
tenho sobretudo lá, uma distância imensa
feita de planícies estendidas e eternidade
porque eu caminho com vagar ao longo das
estradas, o horizonte é demasiado quando
planeio toda a sua distância sem medo de
nada, destemido apenas, a coragem é um
exército ao meu lado, tenho a coragem
necessária, tenho um lago que reflecte a
noite e a lua quando há lua, uma orquestra
inteira tenho, o som e o silêncio, já disse o
silêncio, repito-o a saber quem sou e o que
tenho, tenho uma gaveta de papéis, tenho
montanhas de montanhas, tenho ar, tenho
tempo e tenho uma palavra que corre à
minha frente, mas que consigo apanhar
e que ainda utilizo no poema.

José Luís Peixoto
Gaveta de Papéis

Os ares



Os ares
como são furtivos

Como os diria
calmos
quando não faltam
na respiração

Quando são
vento melhor
que o pulmão
que o calor

Respiram consigo
os ares claros
movem a vida
raros

Ares densos não são esses
para quem sente denso
o coração
Chamai-lhes vento
e claramente os ares
são roucos
se então
eles trespassam
a pele da boca


Fiama Hasse Pais Brandão

segunda-feira, janeiro 24, 2011

assusta-me



assusta-me que o
ofício da luz perca os
objectos ou estas longas
paisagens. mas farto-me das
coisas que, ao mínimo
vislumbre, parecem
reais.


valter hugo mãe
foto: antónio matos

Validation

segunda-feira, janeiro 10, 2011

no desgoverno dos sonhos




no desgoverno dos sonhos,
talvez púrpura do frio, talvez
cego de sol, talvez acorde

procuro palavras que
me entendam

como imagino coisas acesas
pelos lugares e não saboto
a vontade de deus


valter hugo mãe

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Everything is OK

Paulo Robalo...



... e as suas lutas ancestrais indianas, paquistanesas, iranianas num corpo a corpo em a cera de abelha, fundida a quente com pigmentos naturais...
é belo...

Ana Hatherly... colagem

Everything is OK on the Happy Carriage

Um simples corpo


A prontidão das sombras resume
Um simples corpo e resvala sinuosa.
Sei que recordo tudo em certos momentos.

Recordo-te até como se te chamasse,
Como se corresse através do caminho
Que vais preparando junto aos precipícios.

Mas a memória revela o que não sei,
Desfaz sequências de nomes até ti.

Repito a violência e seguro uma pedra
Com as mãos – tal como as tuas – já perdidas.

Repito toda a fragilidade que o teu peso insinua
E derramo a voz ao limite – ossos e carne
Que nos atiram ao chão com o afecto da dor.


Rui Almeida
in Lábio Cortado

A definição do amor



dantes escrevia poemas de amor. para viver com o amor
nos poemas, sempre. depois disseram-me que já toda a
gente o fez, que nada mais havia a escrever sobre o amor.
que o amor já estava em demasiados poemas. eu aceitei
o conselho e passei a escrever poemas de morte. escrevi
muitos poemas sobre o meu pai, até ao dia em que percebi
que a morte é sinónimo de amor, como tudo é sinónimo
do amor. e voltei a escrever o que nada havia a
dizer. porque até o poema é sinónimo de amor.

 
Jorge Reis-Sá
in biologia do homem

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Passagem...


Passagem.
O gosto de ocultar venceu. Venceram a reserva, a prudência, a discrição natural, a instintiva tendência chinesa para apagar vestígios, para evitar encontrar-se a descoberto.

O prazer de manter escondido venceu. Assim a escrita passou a estar ao abrigo, passou a ser um segredo; segredo entre iniciados.

Segredo difícil, longo, custoso de partilhar, segredo para fazer parte de uma sociedade. Círculo que durante séculos e séculos vai permanecer no poder. Oligarquia dos subtis.


Henri Michaux
excerto de Idéogrammes en Chine, 1986 / Ideogramas na China, livros Cotovia, 1999 - Série Oriental - tradução de Ernesto Sampaio
 
foto by lia villares

Se ao menos soubesses...


Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos;

se ao menos percebesses que eram nossos
todos os bancos de todos os jardins;

se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo
que ambos empunhámos na cidade clandestina

Quando as manhãs cheiravam a óleo e a flores
e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;

se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo;

se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos.



Joaquim Pessoa

foto: António Matos

quarta-feira, janeiro 05, 2011

CORPO COMUM



surdamente desato
um som inaudível

suponho que perfume algum
possa emanar do nada
em que nenhuma imagem
subsiste

onde não há pegadura
e se saboreia apenas
a exclusiva gastronomia
de morrer-se


Miguel-Manso

terça-feira, dezembro 14, 2010

Para os meus amigos



Um dia a maioria de nós irá separar-se.
Sentiremos saudades de todas as conversas atiradas fora,
das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,
dos tantos risos e momentos que partilhámos.

Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das
vésperas dos fins-de-semana, dos finais de ano, enfim...
do companheirismo vivido.

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.

Hoje já não tenho tanta certeza disso.
Em breve cada um vai para seu lado, seja
pelo destino ou por algum
desentendimento, segue a sua vida.

Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe... nas cartas
que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices...
Aí, os dias vão passar, meses... anos... até este contacto
se tornar cada vez mais raro.

Vamo-nos perder no tempo...

Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e
perguntarão:
Quem são aquelas pessoas?
Diremos... que eram nossos amigos e... isso vai doer tanto!

- Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons
anos da minha vida!
A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...

Quando o nosso grupo estiver incompleto...
reunir-nos-emos para um último adeus a um amigo.
E, entre lágrimas, abraçar-nos-emos.
Então, faremos promessas de nos encontrarmos mais vezes
daquele dia em diante.

Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a
sua vida isolada do passado.
E perder-nos-emos no tempo...

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não
deixes que a vida
passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de
grandes tempestades...

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem
morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem
todos os meus amigos!


Fernando Pessoa

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Andava a lua nos céus




Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo

Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.


António Botto
Aves de Um Parque Real
As Canções de António Botto
1999

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Where is my man




Nunca te tenho tanto como quando te busco
sabendo de antemão que não consigo encontrar-te.

Só então consinto estar apaixonada.

Só então me perco na selva esmaltada
de carros ou carrosséis, cafés abarrotados,
luas de montras, labirintos de parques
ou de espelhos, correndo atrás de tudo
o que se parece contigo.

Estou sempre à espreita.

O alcatrão derrete na rua,
este movente estampado
de camisas e pólos, cujas cores comparo
ao azul celeste ou ao verde malaquita
que por teu peito eu abria.

Deliciosa angústia se julgo reconhecer-te
me faz desmaiar, minha pele toda a nomear-te,
alerta, pendente de meus olhos.

Minha vista indaga, como é fácil de ver,
qualquer indício que me leve a ti,
que te meta no meio onde só tua imagem
prevalece e se te ajuste e funda,
te achegue, te inaugure e estejas para sempre.


Ana Rossetti

Eu ontem vi-te...




Eu ontem vi-te

Andava a luz
do teu olhar,
que me seduz,
a divagar
em torno de mim.

E então pedi-te,
não que me olhasses,
mas que afastasses,
um poucochinho,
do meu caminho,
um tal fulgor.

De medo, amor,
que me cegasse,
me deslumbrasse
fulgor assim.



Ângelo de Lima