"eu vou mostrando como sou e vou sendo como posso..." como diriam os Novos Baianos
terça-feira, maio 31, 2011
Sem emoção, nada avança... Bel Cesar
As emoções, com seus altos e baixos, dão cor à vida.
David Fontana
A palavra emoção vem do latim emovere que significa abalar, sacudir, deslocar. Esta, por sua vez, deriva de movi, que significa literalmente: pôr em movimento, mover. Logo, emoção, antes de mais nada, significa movimento. Ou ainda, energia em movimento. Portanto, não devemos perder de vista o fato de que sem emoção, nada avança.
Na psicologia ocidental, o termo emoção ainda está em discussão. Enquanto na linguagem quotidiana os conceitos são compreensíveis, na linguagem da ciência reina confusão.
Uma vez que não existe em tibetano um termo específico para traduzir a palavra emoção, podemos encontrar atualmente livros em que Sua Santidade Dalai Lama debate com psicólogos ocidentais a utilização da palavra. Há interessantes discussões sobre o assunto nos livros Emoções que Curam e Como lidar com Emoções destrutivas, organizados por Daniel Goleman. Neste último, cientistas e psicólogos chegam a uma definição funcional: a emoção é um estado mental que tem um forte componente sensível. Mas o Dalai Lama esclarece: O fato de existir um termo específico para definir emoção no pensamento ocidental não implica que se deu ênfase especial ao entendimento da natureza da emoção. Talvez inicialmente a motivação para rotular algo como emoção tenha sido valorizar a razão, identificando algo que não é racional.
O monge budista Matthieu Ricard, intérprete do Dalai Lama, esclarece ainda em outro trecho do mesmo livro: A palavra inglesa emotion provém da raiz latina emovere – algo que põe a mente em movimento, tanto para atividades prejudiciais, quanto neutras ou positivas. No budismo, por outro lado, chamaríamos de emoção algo que condiciona a mente e a faz adotar certa perspectiva ou visão das coisas.
Quando encontrei o budismo, uma de minhas primeiras perguntas ao Lama Gangchen Rinpoche foi a respeito das emoções. Em minha visão errônea, os budistas eram pessoas que haviam subjugado todos os seus conflitos, e por isso viviam continuamente em estado de equilíbrio, o que, para mim, os tornava inabaláveis, mas também, de certo modo insensíveis. Se eu praticasse o budismo, tornar-me-ia uma pessoa sob total autocontrole, fria e sem emoções? As emoções impediriam meu desenvolvimento espiritual? Se assim fosse, achava que seria totalmente impossível seguir esse caminho, pois reconheço que sou uma pessoa altamente emocional e vulnerável às influências externas do tempo, das pessoas, do ambiente e principalmente dos sons. Por outro lado, sempre soube que é justamente a minha sensibilidade que torna possível meu desenvolvimento espiritual. Lama Gangchen Rinpoche gentilmente me respondeu: Não há nada de errado em ser emocional. Por meio do budismo, você vai aprender a seguir as emoções positivas e deixar as negativas.
As emoções positivas nos dão uma perspectiva mais ampla das situações, isto é, nos dão clareza e confiança em nossos propósitos: onde estamos e para onde queremos ir. Elas nos trazem a sensação de felicidade, pois o sentido da vida torna-se energeticamente presente. As emoções negativas nos deixam descrentes e confusos quanto a nossas metas. Quando perdemos o significado da vida, sentimos uma profunda tristeza.
Como a fé e a compaixão, as emoções positivas são virtudes mentais: energia positiva acumulada. Elas nos revitalizam, despertam determinação e interesse em obter novos conhecimentos e renovar nossas atitudes: uma vontade sincera de mudar para melhor.
Uma vez que as emoções positivas nos tornam disponíveis para o novo, tornamo-nos flexíveis e abertos. Interessados em aprender, sentimo-nos vivos, despertos. Portanto, as emoções positivas são reparadoras. Elas provocam bem-estar e nos ajudam a superar as emoções negativas que, por sua vez, consomem nossa energia vital, deixando-nos exaustos e depressivos.
Essencialmente, a emoção destrutiva – que é também chamada de fator mental ‘obscurecedor’ ou ‘aflitivo’ – é algo que impede a mente de comprovar a realidade como ela é. Na emoção destrutiva, sempre haverá uma lacuna entre o que parece e o que é. Pois quando nossas opiniões estão contaminadas por uma emoção negativa, temos uma imagem distorcida das coisas e das pessoas, e ficamos impedidos de equilibrar suas qualidades positivas e negativas.
Quando somos movidos pelo apego excessivo, pela aversão ou pelo ressentimento, por exemplo, ficamos rígidos. Amarrados às nossas idéias fixas, tornamo-nos intolerantes e sem perspectiva. Não estamos, portanto, disponíveis às mudanças: presos a nossos hábitos negativos, perdemos a habilidade de nos movermos em direção a novas possibilidades.
As emoções negativas inflam o ego e criam exageros que acabam por desencadear separações, ciúmes, inveja, baixa auto-estima e doenças físicas.
As emoções positivas geram estados mentais construtivos como o amor-próprio, a boa auto-estima, sentimentos de integridade, de solidariedade, de generosidade e compaixão, e por isso nos tornam empáticos com sabedoria: somos capazes de perceber a nós mesmos e aos outros ao mesmo tempo e, assim, agir de acordo com as necessidades reais da situação.
A prática da filosofia budista nos ajuda a desenvolver a inteligência emocional: a capacidade de criar motivações para si próprio e de persistir num objetivo apesar dos percalços; de controlar impulsos e saber aguardar pela satisfação de seus desejos; de se manter em bom estado de espírito e de impedir que a ansiedade interfira na capacidade de raciocinar; ser empático e autoconfiante.
O budismo nos ajuda a desenvolver a autoconsciência, isto é, a capacidade de identificar um sentimento quando ele surge e a habilidade de discernir as emoções construtivas das destrutivas.
A anatomia das emoções segundo a Psicologia Budista
Segundo o budismo tibetano, a natureza da mente sutil do ser humano é potencialmente pura como a energia de um puro cristal. No entanto, está contaminada por três grandes venenos mentais: o apego, a raiva e a ignorância. Estes, por sua vez, são resultantes de um grande veneno mental: o fato de pensarmos que as coisas existem por si só e que são permanentes.
Nada existe por si só, tudo está interligado. Apesar do seu aspecto permanente, tudo está em constante transformação. Podemos compreender estas verdades racionalmente, mas agimos instintivamente como se as coisas e as pessoas existissem em si e por si próprias, a partir delas mesmas. Nossa percepção da realidade está distorcida. Da mesma forma, sabemos que vamos morrer um dia, mas vivemos como se fôssemos imortais.
Podemos até perceber nossa ignorância, mas enquanto a base de nosso ambiente interno for o medo e a dúvida, continuaremos presos a nossos hábitos mentais distorcidos. Enquanto pensarmos que somos pessoas carentes e inadequadas, não seremos capazes de reconhecer nossa base interna positiva!
A anatomia das emoções conforme a psicologia budista é descrita no Abhidharma (que na língua pali dos tempos de Buddha significa “a doutrina final”), o texto original da epistemologia do budismo, onde são elaboradas as investigações originais de Buddha sobre a natureza humana.
Segundo o Abhidharma, todos os seres são compostos de fatores mentais ou “Nama”, e fatores materiais ou “Rupa”. O indivíduo é um “Nama-rupa”. Nama denota tanto a consciência como os estados mentais. Assim, o Abhidharma enumera 51 tipos de estados mentais.
Ainda de acordo com o Abhidharma, existem 89 tipos de consciência. Destas, 80 são características do ser comum, e as 9 restantes são próprias daqueles que atingiram um desenvolvimento espiritual superior.
A psicologia budista descreve nos “sankharas”, ou estados mentais generalizados, Seis Emoções Básicas (Seis Venenos-Raiz ou Aflições mentais); Vinte Emoções Secundárias; Onze Fatores Mentais Virtuosos; Quatro Fatores Mentais que podem ou não ser virtuosos.
As Seis Emoções Básicas são (em itálico, os termos em tibetano):
1. Apego, isto é, desejo ou ansiedade por possuir – Dö.Tchag
2. Raiva, hostilidade, ódio – Kong.tro
3. Ignorância, ilusão – Ma.rig.pa
4. Orgulho, arrogância – Nga.guiel
5. Dúvida ou suspeita – Te.tsom
6. Visões falsas ou errôneas – Ta.wa.nyon.mon.tchen
Destas, as três primeiras são as mais graves, por isso, são chamadas de Os três Venenos Mentais.
As Vinte Emoções Secundárias, derivadas de algumas Emoções básicas, conhecidas também como Os Vinte Fatores Afins da Instabilidade, são:
Raiva
1.Irritação, agressividade ou indignação – Tro.wa
2.Ressentimento ou rancor – Kön.dzin
3.Hipocrisia ou dissimulação – Tchab.pa
4.Malevolência ou animosidade – Tseg.pa
5.Inveja ou ciúmes – Trag.dog
6. Crueldade ou malícia – Nam.Tse
Apego
7. Avareza – Ser.na
8. Excitação mental – Go.pa
9. Arrogância ou presunção – Guia.pa
Ignorância
10. Desatenção – She.Shin Min.pa
11. Melancolia ou Mente Pesada – Mug.pa
12. Falta de confiança ou Incredulidade – Ma.te.pa
13. Preguiça – Lê.lo
14. Falta de atenção introspectiva ou esquecimento – Dje.nhe
Ignorância + apego
15. Falsidade ou pretensão – Guiu
16. Desonestidade – Yo
Ignorância + apego + raiva
17. Impudência ou ausência de vergonha – NgoTsa Med.pa
18. Falta do senso de propriedade ou desconsideração – Trel.Me.pa
19. Desinteresse – Bag.me
20. Distração – Nam.yen
Os Onze Fatores Mentais Virtuosos são:
1. Fé – De.pa
2. Sentido do que é correto – Ngo.Tsa.she.pa
3. Consideração pelos outros – Trel.yo.pa
4. Desapego – Ma.tchag.pa
5. Não-raiva ou imperturbabilidade – She.dang.me.pa
6. Não-confusão – Ti.mug.me.pa
7. Perseverança entusiástica – Tson.dru
8. Flexibilidade – Shintu.djang
9. Retidão mental – Bag.yo
10. Não-violência – Nam.par.mi.tse.ba
11. Equanimidade – Tang.nhön
Os Quatro Fatores Mentais que podem ou não ser virtuosos são:
1. Dormir – nhi
2. Arrependimento – Guio.pa
3. Investigação geral – Tog.pa
4. Análise – Tcho.pa
O Abhidharma distingue entre os fatores mentais que são puros, saudáveis e os que são impuros e prejudiciais. O critério usado para fazer essa distinção foi a observação dos fatores mentais que contribuem para a meditação e para o desenvolvimento espiritual.
As emoções positivas encontram-se, na maioria das vezes, encobertas por emoções negativas. A psique humana é formada por camadas mentais: experiências que se sobrepõem e se sustentam umas às outras. Por esta razão, o desenvolvimento espiritual é comparado ao ato de descascar uma cebola: cada camada retirada expõe as qualidades da camada que está abaixo, até desvendar seu núcleo, que é verdadeiramente puro e positivo. Portanto, o budismo nos inspira a entender que no exato momento em que sentimos raiva, temos também a não-raiva como um realidade emocional subjacente à ela.
Ou seja, nossas emoções negativas não podem contaminar nossa natureza essencial - o núcleo de nossa mente -, mas podem encobri-la. Se elas fossem inerentes à mente, não haveria sentido em nosso trabalho de removê-las! Para nos desenvolvermos interiormente, é essencial perceber que é possível nos libertarmos delas.
Chögyam Trungpa, um renomado mestre do budismo tibetano, define o núcleo central e saudável de nossa mente como a bondade fundamental dos seres humanos. Assim, diz ele: “O primeiro passo para perceber a bondade fundamental é valorizar o que temos. Em seguida, porém, deveríamos ver mais longe e examinar o que somos, quem somos, onde estamos, quando somos e como somos enquanto seres humanos, para então sermos capazes de tomar posse da nossa bondade fundamental. Não se trata de uma ‘posse’, mas de todo modo nós a merecermos”.
A mente pura como cristal está sempre presente; no entanto, depende de nosso ambiente interior para se manifestar. Isto é, necessita de constante abertura, confiança e coragem para olhar o que quer que surja em nossa vida com compaixão e entendimento.
Chögyam Trungpa esclarece ainda: “A bondade fundamental está estreitamente vinculada à idéia de Bodhichitta na tradição budista. Bodhi significa ‘desperto’ ou ‘alerta’ e chitta quer dizer ‘coração’; Bodhichitta, portanto, é o ‘coração desperto’. O coração desperto provém de estarmos dispostos a enfrentar nosso estado anímico. Essa exigência pode parecer excessiva, mas é necessária. Cada um de nós deve examinar-se, perguntando quantas vezes tentou um contato pleno e verdadeiro com seu coração”.
No caminho do autoconhecimento, temos que ficar atentos às desculpas que usamos para não buscar nossa evolução. Não podemos nos acomodar nem confundir estabilidade com estagnação ou segurança com resistência à mudança.
As emoções destrutivas nos deixam inquietos e inseguros. Se, por exemplo, estamos preocupados em buscar formas de garantir a continuidade de um prazer, perdemos a espontaneidade e deixamos de apreciar o momento presente. O problema é que estamos tão habituados a nosso ambiente interno de tensão e expectativa que sequer nos damos conta de que estamos sofrendo.
As emoções positivas, ao contrário, são sempre realistas e construtivas. Com elas, nos aquietamos e sentimos disponibilidade para nos abrirmos para os outros.
Jeremy Hayward, discípulo de Chögyam Trungpa, escreve em O Mundo Sagrado: “Nossa bondade fundamental repousa na capacidade de vivermos de uma maneira plena, apaixonada, vívida e ativa; na capacidade de estarmos totalmente conscientes de nossa vida e de vivê-la irrestritamente, não importa as reviravoltas que possa dar; e na capacidade de cuidar tanto dos outros quanto de nós mesmos”.
Portanto, o ponto de partida é aceitar que podemos transformar nossa mente inquieta em uma mente de abertura e confiança: voltar “para casa”, como dizem os mestres budistas
Referências bibliograficas:
1 Editado pelo Prof. Dr. Friedrich Dorsch, Dicionário de Psicologia Ed. Vozes, p.297.
2 e 3 Daniel Goleman, Como lidar com Emoções destrutivas, ed. Campus, p. 167 e 89.
4 Mathieu Ricard em Daniel Goleman, Como lidar com Emoções destrutivas, ed. Campus, p. 90.
5 Daniel Goleman, Inteligência Emocional, Ed. Objetiva, p. 46
6 Ver Daniel Goleman, A Mente Meditativa, Ed. Ática, p. 132.
8 e 9 Chögyam Trungpa Shambhala. Ed. Cultrix p.47
10 Jeremy Hayward, O Mundo Sagrado, Ed.Rocco, p. 29.
Texto extraído do “O livro das Emoções - Reflexões inspiradas na Psicologia do Budismo Tibetano” de Bel César, Ed. Gaia.
domingo, maio 29, 2011
terça-feira, maio 17, 2011
Do livro do desassossego
"Eu tenho uma espécie de dever, de dever de sonhar sempre,
pois sendo mais do que
um espectador de mim mesmo,
Eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E assim me construo a ouro e sedas,
em salas supostas, invento palco,
cenário para viver meu sonho
entre luzes brandas e
músicas invisíveis"
Do livro do desassossego - Fernando Pessoa
(sacado do mural da Elsa Serra)
sexta-feira, maio 13, 2011
domingo, maio 01, 2011
quarta-feira, abril 27, 2011
quinta-feira, abril 21, 2011
The Place
The place may be clean and tidy
and have for furniture only a mat
if there are windows if they are large
so much the better if there’s a flower
or a picture that’s special
if there is a teacher
there may be respite from sorrow
if there is rain remember the occasion
of the double rainbow if there is a marriage
there may be need of a goat
about beauty the old ones could not have forseen
if there is love
think on these things honey nuts and olives
if they are taken from nature
there will be nothing to behold
nor an eye
a poet will have to sing
of the ineffable as true
to begin with
From A Palace of Pearls (Copper Canyon Press, 2005), by Jane Miller.
Pic by rwangsa
quinta-feira, abril 14, 2011
domingo, abril 10, 2011
Tu que me deste o teu cuidado
TU QUE ME DESTE O TEU CUIDADO...
Tu que me deste o teu carinho
E que me deste o teu cuidado,
Acolhe ao peito, como o ninho
Acolhe ao pássaro cansado,
O meu desejo incontentado.
Há longos anos ele arqueja
Em aflitiva escuridão.
Sê compassiva e benfazeja.
Dá-lhe o melhor que ele deseja:
Teu grave e meigo coração.
Sê compassiva. Se algum dia
Te vier do pobre agravo e mágoa,
Atende à sua dor sombria:
Perdoa o mal que desvaria
E traz os olhos rasos de água.
Não te retires ofendida.
Pensa que nesse grito vem
O mal de toda a sua vida:
Ternura inquieta e malferida
Que, antes, não dei nunca a ninguém.
E foi melhor nunca ter dado:
Em te pungido algum espinho,
Cinge-a ao teu peito angustiado.
E sentirás o meu carinho.
E setirás o meu cuidado.
Manuel Bandeira
sábado, abril 09, 2011
Laisser faire, laisser passer
1.
o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha
2.
o neoliberal
neolibera
o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?
3.
no céu neon
do neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super
(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas
(flutuantes)
do câmbio:
enquanto o não
- neoliberado
come pão
com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidrobanheira cor
de âmbar
de sua neo-
mansão em miami
4.
o centro e a direita
(des)conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís-
tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números
5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
dede que circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.
6.
(a
contramundo o mundo-não -mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus
mamonas)
7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes
coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do
perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre - festa
estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)
Haroldo de Campos
Fragmentos
1
Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso
2
Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama
3
O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
4
Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo
5
Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.
Vladimir Maiakóvski
tradução de Augusto Campos
Reportagem
Aborrecido, passeio Pelas ruas da cidade. Deixei agora o Rossio E atravesso o Borratém. Deu meia-noite pausada No Carmo. Um amigo meu Passa e tira-me o chapéu. Paro a uma esquina. Esmoreço Numa saudade que surge Dentro de mim não sei como: Uma saudade infinita, Misto de choro e revolta. Alguém me chama no escuro: Volto a cabeça. A uma porta Um vulto mexe. - Sou eu!, Não fuja, sou eu... - Mas quem? Retrocedo, não conheço A mulher que me chamou. Na verdade ninguém ouve, Ninguém distingue o apelo Do amor que anda perdido No mistério de mentir: Deixo-a ficar onde estava; Dou-lhe um cigarro e um sorriso Dizendo que vou dormir. Atira-me boa-noite Num frio olhar de ofendida. Meto à rua do Amparo A perguntar se esta vida Não terá finalidade Menos sórdida e banal? Atafonas. Uma Igreja. Mais acima o Hospital. Um marinheiro propõe A esta que atravessou A rua do Benformoso Irem tomar qualquer coisa Na Leitaria da Guia. Ela pára. É uma catraia Que talvez não tenha ainda Dezasseis anos. Bonita. Devagar vou-me chegando Xaile, uma blusa, uma saia... E oiço a fala dos dois. Ele parece uma onda, Impetuoso, alagante. Ela é um breve bandó Num corpito provocante. E seguem... Ele, encostado, Muito encostado e aquecido Lá vai como se encontrasse Um objecto perdido Que foi milagre encontrá-lo... Cortaram além!... E param? Oiço o rebate de um estalo E um grito subtil de prece Amedrontada na fuga... Desço ao Marquês do Alegrete. Um candeeiro sinistro Numa casa que se aluga... Vejo um polícia. Arrefece. Um grupo de três sujeitos Discute o vinho de Torres. Varrem as ruas. Um gato Bebe água numa sarjeta; Uma carroça parou Carregada de hortaliça Junto à Praça da Figueira. Corto a rua dos Fanqueiros Já um pouco estropiado... Acendo um cigarro. A noite Lembra um fantasma assustado... Chego ao Terreiro do Paço. O arco da rua Augusta Parece mais imponente Na minha desolação... Vou até ao cais. Em baixo O rio bate sem reacção... A maré vasa. No céu, Vão-se apagando as estrelas. Um guarda-fiscal dormita Na guarita, mas de pé. Um velhote com um cesto E uma lata vem dizer-me Se eu quero beber café. Num banco de pedra. Cismo. E ali me fico a cismar Em coisa nenhuma... O dia Principia a querer ser Mais um passo na incerteza Das nossas aspirações... As águas do rio a escutar Parecem adormecidas... E o dia nasce! Vem triste, Nublado, fosco, cinzento, Enquanto pela cidade A vida acorda e desata O matinal movimento... António Botto Photo by Gatumudo |
sexta-feira, abril 08, 2011
The Lovers
One is upstairs typing,
the other downstairs
the other downstairs
reading, two lovers
separated by a single floor.
A simple sentence.
A simple sentence.
The closest they will get
is in that moment
when one stops the way
when one stops the way
the other also stops,
exchanging places
with each other
with each other
without ever getting up—
Timothy Liu is the author of eight books of poems, most recently Polytheogamy and Bending the Mind Around the Dream’s Blown Fuse.
in Zócalo Public Square
photo by aless&ro
segunda-feira, março 28, 2011
Happiness
Happiness cannot be traveled to, owned, earned, worn or consumed.
Happiness is the experience of living every minute with love, grace
and gratitude.
Happiness is the experience of living every minute with love, grace
and gratitude.
quarta-feira, março 16, 2011
segunda-feira, março 14, 2011
Astro-Gymnastics
Go on a starlit night,
stand on your head,
leave your feet dangling
outwards into space,
and let the starry
firmament you tread
be, for the moment,
your elected base.
Feel Earth’s colossal weight
of ice and granite,
of molten magma,
water, iron, and lead;
and briefly hold
this strangely solid planet
balanced upon
your strangely solid head.
by Piet Hein
Foto de Anton Bielousov "stars_astrogymnastics"-613x391
in Zócalo, Connecting People to Ideas and to Each Other
sexta-feira, março 11, 2011
Independência
Recuso-me a aceitar o que me derem.
Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.
Recuso-me às espadas que não ferem
e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.
Recuso-me a estar lúcido ou comprado
e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.
Recuso-me à inocência e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!
Jorge de Sena, in 'Coroa da Terra'
quinta-feira, março 10, 2011
segunda-feira, março 07, 2011
Is Old Age Over?
By 2030, over 70 million Americans will be beyond traditional retirement age and facing the problems that come with growing old: weakened physical and mental capability, uncertain financial standing, personal loss and loneliness, and a sense of exclusion from America’s age-old affair with youth.
But even as the baby boomer generation moves inexorably toward the 65-year-old divide, scientists, health gurus, and businessmen promise that old age can be “cured”, or at least put on pause.
Is there hope for a new old age, or are we still chasing the fountain of youth?
Best-selling writer and social commentator Susan Jacoby, author of Never Say Die: The Myth and Marketing of the New Old Age, visits Zócalo to ask what old age means, and whether living longer is possible — or even desirable — without living better.
http://tinyurl.com/4q84som
But even as the baby boomer generation moves inexorably toward the 65-year-old divide, scientists, health gurus, and businessmen promise that old age can be “cured”, or at least put on pause.
Is there hope for a new old age, or are we still chasing the fountain of youth?
Best-selling writer and social commentator Susan Jacoby, author of Never Say Die: The Myth and Marketing of the New Old Age, visits Zócalo to ask what old age means, and whether living longer is possible — or even desirable — without living better.
http://tinyurl.com/4q84som
quinta-feira, março 03, 2011
BEING A GRAIN OF SAND
The real experience, beyond the dream world, is the beauty and color and excitement of the real experience of now in everyday life. When we face things as they are, we give up the hope of something better. Depression and ignorance, the emotions, whatever we experience, are all real and contain tremendous truth. If we really want to experience the truth, we have to be where we are. It is just a matter of being a grain of sand.
terça-feira, fevereiro 15, 2011
Els Castellers
Els Castellers by Fernando Barão
A castell is a human tower built traditionally in festivals at many locations within Catalonia, in Spain.
Camera: Nikon D70
Camera specifications
Focal length: 200 mm
Focal length: 200 mm
Shutter speed: 1/180 sec
Aperture: F6.3
By big master Fernando Barão
1st place at dpreview
segunda-feira, fevereiro 14, 2011
sexta-feira, fevereiro 04, 2011
Hypocrite Reader–Mon Semblable!
In his book Why Everyone (Else) is a Hypocrite, psychology professor Robert Kurzban argues that hypocrisy is hard-wired into the human brain. Kurzban’s evolutionary psychological view of the mind calls into question our customary notions of consciousness and self, as this excerpt from his book entertainingly demonstrates:
There really is something strangely compelling about the notion of someone in charge in the brain, someone watching the action, someone in control. Indeed, the philosopher Jerry Fodor is insistent on this point: “If . . . there is a community of computers living in my head, there had also better be somebody who is in charge; and, by God, it had better be me.” I don’t really know what Fodor means by “somebody,” “in charge,” or “me” in that sentence, so I’ll just pass discreetly on.
The modular view means that we ought to be really careful about how we think about consciousness. Because we don’t really know the function of the modules that happen to be conscious, we should be very wary of the notion that conscious modules are necessarily going to turn out to have really big roles to play in what the brain, as a whole, is up to. It might seem as though they should, but it could be that we only feel this way because consciousness is the only thing the brain does that feels like something. My guess–and I think the evidence in psychology is with me on this–is that whatever the conscious modules actually do constitutes relatively little of what the mind, in total, does. So, there are many, many things going on in your brain, and “you” have consciousness–experience–of only some of them. Your visual system is doing all kinds of complex computations–it takes an insanely complicated set of operations to turn the light on your retina into something other bits of the brain can use, and you don’t experience any of those. You just experience the visual world.
Further, there’s no particular reason that we ought to expect that consciousness is or must be associated with any particular process. We know more today than we used to about consciousness, but I think I’m on firm ground when I say that there’s still a lot we don’t know. In particular, I don’t think we know what the function of consciousness is, or even if it’s reasonable to talk about consciousness having a function. I won’t get into the philosophy of this, but it’s worth keeping in mind that if we don’t really understand it, we probably shouldn’t make any sweeping claims about it.
There’s a strong intuition that the conscious modules are “us,” and that “we” need to know, basically, everything. But while Bobby does just fine asking Annie out at the end of cranium command, the modules that implement this excellent idea probably don’t have information about how that decision was made. Many, many modules are busily doing their jobs, giving conscious modules the information necessary to do theirs, but quite possibly not much beyond that.
It’s easy to forget this. It’s easy to think that the conscious I is “in charge,” originates decisions, and, basically, is every single module. But it’s not. I think Dennett got it right when he said that while there is some sense in which we all reject dualism, nonetheless, as he put is, “the persuasive imagery of the Cartesian theater keeps coming back to haunt us–laypeople and scientists alike–even after its ghostly dualism has been denounced and exorcized.” Excerpted from Why Everyone Else Is A Hypocrite: Evolution and the Modular Mind, by Robert Kurzban. Copyright © 2011 by Robert Kurzban. Excerpted with permission by Princeton University Press.
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*Photo of Rodin’s “The Thinker” courtesy of edmenendez.
quinta-feira, fevereiro 03, 2011
Presunção de sofrer
Penso que deve existir para cada um
uma só palavra que a inspiração dos povos deixasse
virgem de sentido e que,
vinda de um ponto fogoso da treva, batesse
como um raio
nos telhados de uma vida, e o céu
com águas e astros
caísse sobre esse rosto dormente, essa fechada
exaltação.
Que palavra seria, ignoro. O nome talvez
de um instrumento antigo, um nome ligado
à morte — veneno, punhal, rio
bárbaro onde
os afogados aparecem cegamente abraçados a enormes
luas impassíveis.
Um abstracto nome de mulher ou pássaro.
Quem sabe? — Espelo, Cotovia, ou a desconhecida
palavra Amor.
Sei que a minha vida estremeceria, que
os braços sonâmbulos
iriam para o alto e queimariam a ligeira
noite de junho, ou que o meu
coração ficaria profundamente louco. E nessa
loucura
cada coisa tomaria seu próprio nome e espírito,
e cada nome seria iluminado
por todos os outros nomes da terra, e tudo
arderia num só fogo, entre o espaço violento
do mês de primavera e a terra
baixa e magnífica.
Herberto Helder
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
A canção do delirante Aengus
Eu fui para uma floresta de nogueiras,
Porque minha mente estava inquieta,
Eu colhi e limpei algumas nozes,
E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo;
E, quando as claras mariposas estavam voando,
Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas,
Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho
E capturei uma pequena truta prateada.
Quando eu a coloquei no chão
E fui soprar para reativar as chamas,
Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.
Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.
W.B. Yeats (1899)
foto de Jules Berlin.
Poemas... e são dois!
falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida
***
pus-me a escrever um poema que
fosse tal e qual uma pedra e
acertasse sempre no que
eu bem quisesse
se parti alguma coisa, pois
não faço ideia
o que garanto é que
não fui multada
até recebi direitos de autor
ainda que injustamente
a pedra era obviamente um plágio
quanto ao poema, quem sabe
Bénédicte Houart
in Aluimentos, Cotovia, 2009
Hipérbole del amoroso
Hipérbole del amoroso
Te amo tanto que duermo con los ojos abiertos.
Te amo tanto que hablo con los árboles.
Te amo tanto que como ruiseñores.
Te amo tanto que lloro joyas de oro.
Te amo tanto que mi alma tiene trenzas.
Te amo tanto que me olvido del mar.
Te amo tanto que las arañas me sonríen.
Te amo tanto que soy una jirafa.
Te amo tanto que a Dios telefoneo.
Te amo tanto que acabo de nacer.
Carlos Edmundo de Ory
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