"eu vou mostrando como sou e vou sendo como posso..." como diriam os Novos Baianos
segunda-feira, junho 27, 2011
terça-feira, junho 14, 2011
AFLEUR (giuseppe la spada + con_cetta)
Notes on artwork:
Love? And if love was a flower? and if love was a flower of paper, a flower cloth? Where does love hide?
My ispiration, the poetic highpoint of Vigo's cinema, the skipper has been told that one can see the person that one loves underwater.
In Western culture, the tulip is a symbol of inconstancy. In oriental culture is perfect love.
concept & video: giuseppe la spadamusic: con_cetta (giuseppe cordaro)
sexta-feira, junho 10, 2011
terça-feira, junho 07, 2011
terça-feira, maio 31, 2011
Sem emoção, nada avança... Bel Cesar
As emoções, com seus altos e baixos, dão cor à vida.
David Fontana
A palavra emoção vem do latim emovere que significa abalar, sacudir, deslocar. Esta, por sua vez, deriva de movi, que significa literalmente: pôr em movimento, mover. Logo, emoção, antes de mais nada, significa movimento. Ou ainda, energia em movimento. Portanto, não devemos perder de vista o fato de que sem emoção, nada avança.
Na psicologia ocidental, o termo emoção ainda está em discussão. Enquanto na linguagem quotidiana os conceitos são compreensíveis, na linguagem da ciência reina confusão.
Uma vez que não existe em tibetano um termo específico para traduzir a palavra emoção, podemos encontrar atualmente livros em que Sua Santidade Dalai Lama debate com psicólogos ocidentais a utilização da palavra. Há interessantes discussões sobre o assunto nos livros Emoções que Curam e Como lidar com Emoções destrutivas, organizados por Daniel Goleman. Neste último, cientistas e psicólogos chegam a uma definição funcional: a emoção é um estado mental que tem um forte componente sensível. Mas o Dalai Lama esclarece: O fato de existir um termo específico para definir emoção no pensamento ocidental não implica que se deu ênfase especial ao entendimento da natureza da emoção. Talvez inicialmente a motivação para rotular algo como emoção tenha sido valorizar a razão, identificando algo que não é racional.
O monge budista Matthieu Ricard, intérprete do Dalai Lama, esclarece ainda em outro trecho do mesmo livro: A palavra inglesa emotion provém da raiz latina emovere – algo que põe a mente em movimento, tanto para atividades prejudiciais, quanto neutras ou positivas. No budismo, por outro lado, chamaríamos de emoção algo que condiciona a mente e a faz adotar certa perspectiva ou visão das coisas.
Quando encontrei o budismo, uma de minhas primeiras perguntas ao Lama Gangchen Rinpoche foi a respeito das emoções. Em minha visão errônea, os budistas eram pessoas que haviam subjugado todos os seus conflitos, e por isso viviam continuamente em estado de equilíbrio, o que, para mim, os tornava inabaláveis, mas também, de certo modo insensíveis. Se eu praticasse o budismo, tornar-me-ia uma pessoa sob total autocontrole, fria e sem emoções? As emoções impediriam meu desenvolvimento espiritual? Se assim fosse, achava que seria totalmente impossível seguir esse caminho, pois reconheço que sou uma pessoa altamente emocional e vulnerável às influências externas do tempo, das pessoas, do ambiente e principalmente dos sons. Por outro lado, sempre soube que é justamente a minha sensibilidade que torna possível meu desenvolvimento espiritual. Lama Gangchen Rinpoche gentilmente me respondeu: Não há nada de errado em ser emocional. Por meio do budismo, você vai aprender a seguir as emoções positivas e deixar as negativas.
As emoções positivas nos dão uma perspectiva mais ampla das situações, isto é, nos dão clareza e confiança em nossos propósitos: onde estamos e para onde queremos ir. Elas nos trazem a sensação de felicidade, pois o sentido da vida torna-se energeticamente presente. As emoções negativas nos deixam descrentes e confusos quanto a nossas metas. Quando perdemos o significado da vida, sentimos uma profunda tristeza.
Como a fé e a compaixão, as emoções positivas são virtudes mentais: energia positiva acumulada. Elas nos revitalizam, despertam determinação e interesse em obter novos conhecimentos e renovar nossas atitudes: uma vontade sincera de mudar para melhor.
Uma vez que as emoções positivas nos tornam disponíveis para o novo, tornamo-nos flexíveis e abertos. Interessados em aprender, sentimo-nos vivos, despertos. Portanto, as emoções positivas são reparadoras. Elas provocam bem-estar e nos ajudam a superar as emoções negativas que, por sua vez, consomem nossa energia vital, deixando-nos exaustos e depressivos.
Essencialmente, a emoção destrutiva – que é também chamada de fator mental ‘obscurecedor’ ou ‘aflitivo’ – é algo que impede a mente de comprovar a realidade como ela é. Na emoção destrutiva, sempre haverá uma lacuna entre o que parece e o que é. Pois quando nossas opiniões estão contaminadas por uma emoção negativa, temos uma imagem distorcida das coisas e das pessoas, e ficamos impedidos de equilibrar suas qualidades positivas e negativas.
Quando somos movidos pelo apego excessivo, pela aversão ou pelo ressentimento, por exemplo, ficamos rígidos. Amarrados às nossas idéias fixas, tornamo-nos intolerantes e sem perspectiva. Não estamos, portanto, disponíveis às mudanças: presos a nossos hábitos negativos, perdemos a habilidade de nos movermos em direção a novas possibilidades.
As emoções negativas inflam o ego e criam exageros que acabam por desencadear separações, ciúmes, inveja, baixa auto-estima e doenças físicas.
As emoções positivas geram estados mentais construtivos como o amor-próprio, a boa auto-estima, sentimentos de integridade, de solidariedade, de generosidade e compaixão, e por isso nos tornam empáticos com sabedoria: somos capazes de perceber a nós mesmos e aos outros ao mesmo tempo e, assim, agir de acordo com as necessidades reais da situação.
A prática da filosofia budista nos ajuda a desenvolver a inteligência emocional: a capacidade de criar motivações para si próprio e de persistir num objetivo apesar dos percalços; de controlar impulsos e saber aguardar pela satisfação de seus desejos; de se manter em bom estado de espírito e de impedir que a ansiedade interfira na capacidade de raciocinar; ser empático e autoconfiante.
O budismo nos ajuda a desenvolver a autoconsciência, isto é, a capacidade de identificar um sentimento quando ele surge e a habilidade de discernir as emoções construtivas das destrutivas.
A anatomia das emoções segundo a Psicologia Budista
Segundo o budismo tibetano, a natureza da mente sutil do ser humano é potencialmente pura como a energia de um puro cristal. No entanto, está contaminada por três grandes venenos mentais: o apego, a raiva e a ignorância. Estes, por sua vez, são resultantes de um grande veneno mental: o fato de pensarmos que as coisas existem por si só e que são permanentes.
Nada existe por si só, tudo está interligado. Apesar do seu aspecto permanente, tudo está em constante transformação. Podemos compreender estas verdades racionalmente, mas agimos instintivamente como se as coisas e as pessoas existissem em si e por si próprias, a partir delas mesmas. Nossa percepção da realidade está distorcida. Da mesma forma, sabemos que vamos morrer um dia, mas vivemos como se fôssemos imortais.
Podemos até perceber nossa ignorância, mas enquanto a base de nosso ambiente interno for o medo e a dúvida, continuaremos presos a nossos hábitos mentais distorcidos. Enquanto pensarmos que somos pessoas carentes e inadequadas, não seremos capazes de reconhecer nossa base interna positiva!
A anatomia das emoções conforme a psicologia budista é descrita no Abhidharma (que na língua pali dos tempos de Buddha significa “a doutrina final”), o texto original da epistemologia do budismo, onde são elaboradas as investigações originais de Buddha sobre a natureza humana.
Segundo o Abhidharma, todos os seres são compostos de fatores mentais ou “Nama”, e fatores materiais ou “Rupa”. O indivíduo é um “Nama-rupa”. Nama denota tanto a consciência como os estados mentais. Assim, o Abhidharma enumera 51 tipos de estados mentais.
Ainda de acordo com o Abhidharma, existem 89 tipos de consciência. Destas, 80 são características do ser comum, e as 9 restantes são próprias daqueles que atingiram um desenvolvimento espiritual superior.
A psicologia budista descreve nos “sankharas”, ou estados mentais generalizados, Seis Emoções Básicas (Seis Venenos-Raiz ou Aflições mentais); Vinte Emoções Secundárias; Onze Fatores Mentais Virtuosos; Quatro Fatores Mentais que podem ou não ser virtuosos.
As Seis Emoções Básicas são (em itálico, os termos em tibetano):
1. Apego, isto é, desejo ou ansiedade por possuir – Dö.Tchag
2. Raiva, hostilidade, ódio – Kong.tro
3. Ignorância, ilusão – Ma.rig.pa
4. Orgulho, arrogância – Nga.guiel
5. Dúvida ou suspeita – Te.tsom
6. Visões falsas ou errôneas – Ta.wa.nyon.mon.tchen
Destas, as três primeiras são as mais graves, por isso, são chamadas de Os três Venenos Mentais.
As Vinte Emoções Secundárias, derivadas de algumas Emoções básicas, conhecidas também como Os Vinte Fatores Afins da Instabilidade, são:
Raiva
1.Irritação, agressividade ou indignação – Tro.wa
2.Ressentimento ou rancor – Kön.dzin
3.Hipocrisia ou dissimulação – Tchab.pa
4.Malevolência ou animosidade – Tseg.pa
5.Inveja ou ciúmes – Trag.dog
6. Crueldade ou malícia – Nam.Tse
Apego
7. Avareza – Ser.na
8. Excitação mental – Go.pa
9. Arrogância ou presunção – Guia.pa
Ignorância
10. Desatenção – She.Shin Min.pa
11. Melancolia ou Mente Pesada – Mug.pa
12. Falta de confiança ou Incredulidade – Ma.te.pa
13. Preguiça – Lê.lo
14. Falta de atenção introspectiva ou esquecimento – Dje.nhe
Ignorância + apego
15. Falsidade ou pretensão – Guiu
16. Desonestidade – Yo
Ignorância + apego + raiva
17. Impudência ou ausência de vergonha – NgoTsa Med.pa
18. Falta do senso de propriedade ou desconsideração – Trel.Me.pa
19. Desinteresse – Bag.me
20. Distração – Nam.yen
Os Onze Fatores Mentais Virtuosos são:
1. Fé – De.pa
2. Sentido do que é correto – Ngo.Tsa.she.pa
3. Consideração pelos outros – Trel.yo.pa
4. Desapego – Ma.tchag.pa
5. Não-raiva ou imperturbabilidade – She.dang.me.pa
6. Não-confusão – Ti.mug.me.pa
7. Perseverança entusiástica – Tson.dru
8. Flexibilidade – Shintu.djang
9. Retidão mental – Bag.yo
10. Não-violência – Nam.par.mi.tse.ba
11. Equanimidade – Tang.nhön
Os Quatro Fatores Mentais que podem ou não ser virtuosos são:
1. Dormir – nhi
2. Arrependimento – Guio.pa
3. Investigação geral – Tog.pa
4. Análise – Tcho.pa
O Abhidharma distingue entre os fatores mentais que são puros, saudáveis e os que são impuros e prejudiciais. O critério usado para fazer essa distinção foi a observação dos fatores mentais que contribuem para a meditação e para o desenvolvimento espiritual.
As emoções positivas encontram-se, na maioria das vezes, encobertas por emoções negativas. A psique humana é formada por camadas mentais: experiências que se sobrepõem e se sustentam umas às outras. Por esta razão, o desenvolvimento espiritual é comparado ao ato de descascar uma cebola: cada camada retirada expõe as qualidades da camada que está abaixo, até desvendar seu núcleo, que é verdadeiramente puro e positivo. Portanto, o budismo nos inspira a entender que no exato momento em que sentimos raiva, temos também a não-raiva como um realidade emocional subjacente à ela.
Ou seja, nossas emoções negativas não podem contaminar nossa natureza essencial - o núcleo de nossa mente -, mas podem encobri-la. Se elas fossem inerentes à mente, não haveria sentido em nosso trabalho de removê-las! Para nos desenvolvermos interiormente, é essencial perceber que é possível nos libertarmos delas.
Chögyam Trungpa, um renomado mestre do budismo tibetano, define o núcleo central e saudável de nossa mente como a bondade fundamental dos seres humanos. Assim, diz ele: “O primeiro passo para perceber a bondade fundamental é valorizar o que temos. Em seguida, porém, deveríamos ver mais longe e examinar o que somos, quem somos, onde estamos, quando somos e como somos enquanto seres humanos, para então sermos capazes de tomar posse da nossa bondade fundamental. Não se trata de uma ‘posse’, mas de todo modo nós a merecermos”.
A mente pura como cristal está sempre presente; no entanto, depende de nosso ambiente interior para se manifestar. Isto é, necessita de constante abertura, confiança e coragem para olhar o que quer que surja em nossa vida com compaixão e entendimento.
Chögyam Trungpa esclarece ainda: “A bondade fundamental está estreitamente vinculada à idéia de Bodhichitta na tradição budista. Bodhi significa ‘desperto’ ou ‘alerta’ e chitta quer dizer ‘coração’; Bodhichitta, portanto, é o ‘coração desperto’. O coração desperto provém de estarmos dispostos a enfrentar nosso estado anímico. Essa exigência pode parecer excessiva, mas é necessária. Cada um de nós deve examinar-se, perguntando quantas vezes tentou um contato pleno e verdadeiro com seu coração”.
No caminho do autoconhecimento, temos que ficar atentos às desculpas que usamos para não buscar nossa evolução. Não podemos nos acomodar nem confundir estabilidade com estagnação ou segurança com resistência à mudança.
As emoções destrutivas nos deixam inquietos e inseguros. Se, por exemplo, estamos preocupados em buscar formas de garantir a continuidade de um prazer, perdemos a espontaneidade e deixamos de apreciar o momento presente. O problema é que estamos tão habituados a nosso ambiente interno de tensão e expectativa que sequer nos damos conta de que estamos sofrendo.
As emoções positivas, ao contrário, são sempre realistas e construtivas. Com elas, nos aquietamos e sentimos disponibilidade para nos abrirmos para os outros.
Jeremy Hayward, discípulo de Chögyam Trungpa, escreve em O Mundo Sagrado: “Nossa bondade fundamental repousa na capacidade de vivermos de uma maneira plena, apaixonada, vívida e ativa; na capacidade de estarmos totalmente conscientes de nossa vida e de vivê-la irrestritamente, não importa as reviravoltas que possa dar; e na capacidade de cuidar tanto dos outros quanto de nós mesmos”.
Portanto, o ponto de partida é aceitar que podemos transformar nossa mente inquieta em uma mente de abertura e confiança: voltar “para casa”, como dizem os mestres budistas
Referências bibliograficas:
1 Editado pelo Prof. Dr. Friedrich Dorsch, Dicionário de Psicologia Ed. Vozes, p.297.
2 e 3 Daniel Goleman, Como lidar com Emoções destrutivas, ed. Campus, p. 167 e 89.
4 Mathieu Ricard em Daniel Goleman, Como lidar com Emoções destrutivas, ed. Campus, p. 90.
5 Daniel Goleman, Inteligência Emocional, Ed. Objetiva, p. 46
6 Ver Daniel Goleman, A Mente Meditativa, Ed. Ática, p. 132.
8 e 9 Chögyam Trungpa Shambhala. Ed. Cultrix p.47
10 Jeremy Hayward, O Mundo Sagrado, Ed.Rocco, p. 29.
Texto extraído do “O livro das Emoções - Reflexões inspiradas na Psicologia do Budismo Tibetano” de Bel César, Ed. Gaia.
domingo, maio 29, 2011
terça-feira, maio 17, 2011
Do livro do desassossego
"Eu tenho uma espécie de dever, de dever de sonhar sempre,
pois sendo mais do que
um espectador de mim mesmo,
Eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E assim me construo a ouro e sedas,
em salas supostas, invento palco,
cenário para viver meu sonho
entre luzes brandas e
músicas invisíveis"
Do livro do desassossego - Fernando Pessoa
(sacado do mural da Elsa Serra)
sexta-feira, maio 13, 2011
domingo, maio 01, 2011
quarta-feira, abril 27, 2011
quinta-feira, abril 21, 2011
The Place
The place may be clean and tidy
and have for furniture only a mat
if there are windows if they are large
so much the better if there’s a flower
or a picture that’s special
if there is a teacher
there may be respite from sorrow
if there is rain remember the occasion
of the double rainbow if there is a marriage
there may be need of a goat
about beauty the old ones could not have forseen
if there is love
think on these things honey nuts and olives
if they are taken from nature
there will be nothing to behold
nor an eye
a poet will have to sing
of the ineffable as true
to begin with
From A Palace of Pearls (Copper Canyon Press, 2005), by Jane Miller.
Pic by rwangsa
quinta-feira, abril 14, 2011
domingo, abril 10, 2011
Tu que me deste o teu cuidado
TU QUE ME DESTE O TEU CUIDADO...
Tu que me deste o teu carinho
E que me deste o teu cuidado,
Acolhe ao peito, como o ninho
Acolhe ao pássaro cansado,
O meu desejo incontentado.
Há longos anos ele arqueja
Em aflitiva escuridão.
Sê compassiva e benfazeja.
Dá-lhe o melhor que ele deseja:
Teu grave e meigo coração.
Sê compassiva. Se algum dia
Te vier do pobre agravo e mágoa,
Atende à sua dor sombria:
Perdoa o mal que desvaria
E traz os olhos rasos de água.
Não te retires ofendida.
Pensa que nesse grito vem
O mal de toda a sua vida:
Ternura inquieta e malferida
Que, antes, não dei nunca a ninguém.
E foi melhor nunca ter dado:
Em te pungido algum espinho,
Cinge-a ao teu peito angustiado.
E sentirás o meu carinho.
E setirás o meu cuidado.
Manuel Bandeira
sábado, abril 09, 2011
Laisser faire, laisser passer
1.
o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha
2.
o neoliberal
neolibera
o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?
3.
no céu neon
do neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super
(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas
(flutuantes)
do câmbio:
enquanto o não
- neoliberado
come pão
com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidrobanheira cor
de âmbar
de sua neo-
mansão em miami
4.
o centro e a direita
(des)conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís-
tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números
5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
dede que circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.
6.
(a
contramundo o mundo-não -mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus
mamonas)
7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes
coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do
perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre - festa
estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)
Haroldo de Campos
Fragmentos
1
Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso
2
Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama
3
O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
4
Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo
5
Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.
Vladimir Maiakóvski
tradução de Augusto Campos
Reportagem
Aborrecido, passeio Pelas ruas da cidade. Deixei agora o Rossio E atravesso o Borratém. Deu meia-noite pausada No Carmo. Um amigo meu Passa e tira-me o chapéu. Paro a uma esquina. Esmoreço Numa saudade que surge Dentro de mim não sei como: Uma saudade infinita, Misto de choro e revolta. Alguém me chama no escuro: Volto a cabeça. A uma porta Um vulto mexe. - Sou eu!, Não fuja, sou eu... - Mas quem? Retrocedo, não conheço A mulher que me chamou. Na verdade ninguém ouve, Ninguém distingue o apelo Do amor que anda perdido No mistério de mentir: Deixo-a ficar onde estava; Dou-lhe um cigarro e um sorriso Dizendo que vou dormir. Atira-me boa-noite Num frio olhar de ofendida. Meto à rua do Amparo A perguntar se esta vida Não terá finalidade Menos sórdida e banal? Atafonas. Uma Igreja. Mais acima o Hospital. Um marinheiro propõe A esta que atravessou A rua do Benformoso Irem tomar qualquer coisa Na Leitaria da Guia. Ela pára. É uma catraia Que talvez não tenha ainda Dezasseis anos. Bonita. Devagar vou-me chegando Xaile, uma blusa, uma saia... E oiço a fala dos dois. Ele parece uma onda, Impetuoso, alagante. Ela é um breve bandó Num corpito provocante. E seguem... Ele, encostado, Muito encostado e aquecido Lá vai como se encontrasse Um objecto perdido Que foi milagre encontrá-lo... Cortaram além!... E param? Oiço o rebate de um estalo E um grito subtil de prece Amedrontada na fuga... Desço ao Marquês do Alegrete. Um candeeiro sinistro Numa casa que se aluga... Vejo um polícia. Arrefece. Um grupo de três sujeitos Discute o vinho de Torres. Varrem as ruas. Um gato Bebe água numa sarjeta; Uma carroça parou Carregada de hortaliça Junto à Praça da Figueira. Corto a rua dos Fanqueiros Já um pouco estropiado... Acendo um cigarro. A noite Lembra um fantasma assustado... Chego ao Terreiro do Paço. O arco da rua Augusta Parece mais imponente Na minha desolação... Vou até ao cais. Em baixo O rio bate sem reacção... A maré vasa. No céu, Vão-se apagando as estrelas. Um guarda-fiscal dormita Na guarita, mas de pé. Um velhote com um cesto E uma lata vem dizer-me Se eu quero beber café. Num banco de pedra. Cismo. E ali me fico a cismar Em coisa nenhuma... O dia Principia a querer ser Mais um passo na incerteza Das nossas aspirações... As águas do rio a escutar Parecem adormecidas... E o dia nasce! Vem triste, Nublado, fosco, cinzento, Enquanto pela cidade A vida acorda e desata O matinal movimento... António Botto Photo by Gatumudo |
Subscrever:
Mensagens (Atom)






